A cena se desenrola em função do monte Moriá, lugar em que, um milênio mais tarde o rei Davi compraria um sitio pertencente a Ornã para nele construir o templo de Jerusalém  (1Crônicas 21.18). Foi neste monte onde Abraão esteve para oferecer Isaque que o rei Salomão construiu o templo que levou seu nome (2Crônicas 3.1). Atualmente, há uma mesquita no lugar que se supõe tenha ficado o altar para onde Abraão levou seu filho. Os muçulmanos crêem que foi deste monte que Maomé e seu cavalo subiram para o céu.

Abraão, portanto, não estava participando de uma peça teatral. Embora não soubesse como a história iria terminar, ele se mostrou, segundo o texto bíblico, um homem disposto a ir até o fim no drama real por que passava. Portanto, ele subiu o monte para uma tragédia anunciada. Por isto, dele pôde dizer Soren Kierkegaard: “Ninguém foi tão grande quando Abraão. Quem pode compreendê-lo?”

abraao_isaque2Kierkegaard (1813-1855), filósofo dinamarquês, abordou com propriedade o tema da angústia, que toma lugar central em sua filosofia, sendo que, na maioria das vezes, recorreu a explicação teológica. Kierkegaard contrastou com a tragédia grega Ifgênia em Aulide, que conta a história de Agamenon sacrificando a filha em nome do bem de todos. Agamenon se torna um herói (herói trágico), por ter sacrificado a filha pelos outros, mas é reconhecido, pois não está sozinho, está amparado pelo reconhecimento dos outros. No caso de Abraão, quem o reconheceria? o Absoluto? Ninguém, exceto Deus, compreenderia o sacrifício de Abraão, portanto, nessa missão, ele continua só.

A angústia de Abraão consiste no dilema: perder o filho ou perder Deus? Se sacrificasse Isaque, Abraão o perderia; se Abraão recusasse sacrificar o filho, perderia o contato com Deus, pois sua fé estaria reprovada.  Eis a angústia do patriarca. Acrescente-se a isto a dúvida quanto a questão ética.

Danilo Marcondes, no livro Textos básicos de Ética De Platão a Foucault, lembra que Kant, em “A Religião nos limites da simples razão”, considera em contraposição a Abraão que uma pessoa que conclui que Deus a ordena a agir de forma não-ética deve por algum motivo estar errada. Segundo ele, Kierkegaard diz que “quando a esperança se torna absurda, Abraão crê” e é em última instânciaa fé de Abraão que salva Isaque.

A ética depende do contexto. No nosso contexto e de Kierkegaard, os sacrifícios humanos ocorrem em outra dimensão. Muitas vidas são eliminadas ou mutiladas devido a conflitos com base na economia das nações. Os poetas gregos Ésquilo, Sófocles e Eurípides adotaram o tema do sacrifício humano com frequência, talvez pelo potencial trágico de sua representação teatral. Esse tema não seria bem compreendido em nossos dias.

Em Postagem anterior chamada A demonização e a reconquista de Canaã, fiz um relato histórico do contexto cultural que Canaã estava sujeita: “O Baal de Tiro era conhecido como Melkart, sendo trazido por Acabe para Israel. Charles Pfeiffer, no Comentário Moody, diz que era praticado o infanticídio. ( II Reis 16:3; 21:6; Jer 19:5). Era associado à fertilidade dos campos, não pelas chuvas, mas pelas águas subterrâneas (Os 2:8-13). O deus dos Amonitas era Moloque (I Reis 11:5, 33;II Reis 23:13). Os Amonitas foram derrotados pelo juiz Eúde e posteriormente pelo juiz Jefté pois foram atacados.”

Em escavações em Gezer, arqueólogos (Palestine Exploration Fund), encontraram ruínas de um “lugar alto”, correspondente à época dos cananeus (1500 a.C) que tinha sido um templo, no qual adoravam seu deus baal e sua deusa astorete. Era uma superfície de 50 m por 40m, cercada de muro, sem cobertura, onde os habitantes celebravam suas festas religiosas. Dentro do muro havia 10 colunas de pedra bruta as quais se ofereciam sacrifícios. Sob os detritos, neste lugar alto, os arqueólogos encontraram grande quantidade de jarros contendo os despojos de crianças recém-nascidas, que tinham sido sacrificadas. Outra prática horrível era o que chamavam de sacrifícios dos alicerces era quando iam construir uma casa, sacrificava-se uma criança, cujo corpo era metido no alicerce, a fim de trazer felicidade para o resto da família. Muito disso foi encontrado em Gezer e também em Megido, Jericó e outros lugares. Outrossim, nesse lugar alto, debaixo do entulho, havia grandes quantidades de imagens e placas ornamentais, de asterote, exibindo, grosseiramente exagerados os órgãos sexuais, destinados à provocação de desejos sensuais. Era assim, praticando a licenciosidade como rito, que os povos cananeus prestavam seu culto aos deuses, e também assassinando seus primogênitos, como sacrifício aos mesmos deuses.

Nos estudos de história das religiões, geralmente as imolações foram interpretadasem termos puramente simbólicos. Para o antropólogo René Girard, os sacrifícios teriam a função básica de apaziguar a violência interna das comunidades, um mecanismo eficiente decontrole social: “É a comunidade inteira que o sacrifício protege de sua própria violência, é a comunidadeinteira que se encontra assim direcionada para vítimas exteriores. O sacrifício polarizasobre a vítima os germens de desavença espalhados por toda parte, dissipando-os ao propor-lhes uma saciação parcial”.

A festa sacrifícial (blót) era a prática principal dentro das religiosidades nórdicas.Consistia na morte de criaturas vivas, geralmente cavalos, bois, ovelhas e porcos. Os sacrifícios humanos eram raros e circunstanciais na religiosidade Viking. Amaioria das vítimas, oriundas da própria sociedade nórdica, era composta por escravos,criminosos e em menor escala, crianças, em rituais sempre associados ao deus Óðin.
O Monte Moriá representa um monte sagrado para judeus e muçulmanos. Muitos sacrifícios humanos foram feitos por sua posse. Parece que dependemos de mais uma intervenção divina, apontando para o Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus.
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