A crescente insatisfação popular com a monarquia, o clero e a distribuição de terras, levaria a Inglaterra para a guerra civil. Conta-se que William Dell, em Oxford, disse em 1646 à congregação de seus fiéis (entre os quais avultavam os soldados): “O poder está em vós, que sois o povo; guardai-o, não o abandoneis” Outro capelão do Exército, William Erbery, argumentou que “esses que são chamados ministros” não tinham “maior autoridade para pregar em público do que qualquer indivíduo cristão que tenha recebido o dom”. Tomas Collier, assim como Erbery, ele também defendia a tolerância para com os judeus.

O Parlamento e os ministros presbiterianos trataram de fragmentar o movimento, dispensando soldados e iniciando a campanha para conquista da Irlanda. Percebe-se que as estruturas religiosas no poder buscaram sua manutenção reunindo argumento razoáveis, pouco justificáveis. Quando o clamor do povo não alcançou um Avivamento, a revolução foi a alternativa possível. Os nobres e plebeus escoceses proclamaram então uma “Liga e Pacto Solenes” (com Deus) e iniciaram, em 1638, uma guerra em defesa de sua Igreja. É essa guerra colonial que detona o processo revolucionário inglês dos anos 40.

Christopher Hill, autor de O mundo de ponta-cabeça, lembra que Jaime I, antes de ser rei da Inglaterra, já era rei da Escócia — onde a Igreja oficial não tinha bispos. Por isso pode ser que ele tivesse simpatia pela posição anti-episcopal dos puritanos ingleses; pode ser, também, que apreciasse a oportunidade de se livrar da tutela dos presbiterianos, que dirigiam a Igreja Escocesa.

A impopularidade da Igreja oficial, como um todo, é igualmente comprovada pela iconoclastia popular que irrompia a cada oportunidade: no final da década de 1630 e durante a de 1640, arrancavam-se as divisórias que separavam os altares da parte do templo ocupados pelos fiéis, eram profanados os próprios altares, destruídas estátuas de túmulos.

Allister McGrath notou que as tensões entre diferentes interpretações do Protestantismo deu lugar à Guerra Civil Inglesa (1642 – 51). A vitória puritana do disciplinado exército de Oliver Cronwell não conseguiu sustentar-se politicamente e o Anglicanismo recuperou o poder. Historiadores discutem se a Guerra Civil Inglesa teria sido a última guerra religiosa ou a primeira revolução na Europa, antecipando a Revolução francesa de 1789.

O avivamento é o momento de aceleração da missão da igreja em uma determinada sociedade. Quando a missão da igreja esmorece, a violência recrudesce. Por vezes, o avivamento religioso impulsiona revoluções sociais. Os países europeus do norte da Europa experimentam período de prosperidade graças às reformas sociais garantidas por uma certa tolerância religiosa e cultural, evitando o excessivo controle da igreja Católica nos países do sul da Europa.

O caso da França é oportuno. A perseguição religiosa expulsou judeus e huguenotes. A igreja católica se tornou pouco relevante diante do absolutismo e foi perseguida durante a revolução francesa. Com Napoleão, a igreja retornou em declínio até os dias de hoje.

A figura abaixo chamo de Teorema de Paracleto. Ela apresenta uma balança onde se equilibram o Avivamento e a revolução em uma determinada sociedade. Meu teorema, baseado no história das sociedades, é quando o Avivamento “desce” então as revoluções promovidas pelos grupos humanos se tornam mais “leves”. Se uma sociedade rejeita o avivamento genuíno, tratando de persegui-lo e sucumbir seus efeitos, a correlação de forças muda e os efeitos revolucionários se tornam mais agudos e violentos.

Brass Scales Of Justice Off Balance, Symbolizing Injustice, Over White

“Pesquisadores, jornalistas e políticos, todo mundo foi pego de surpresa. Ninguém esperava que (os protestos) assumissem as proporções que assumiram na segunda-feira”, diz Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor de História Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para Teixeira da Silva, o motivo para essa surpresa deve-se, em parte, ao fato de o Brasil não estar vivendo em condições econômicas e políticas parecidas com outros lugares onde emergiram grandes protestos recentemente, como os países atingidos pela crise na Europa ou pelos movimentos da Primavera Árabe. “Não é nenhuma situação de depressão econômica, desemprego e cortes de benefícios sociais, nem é uma ditadura (como em alguns países árabes). A meu ver, (o movimento) não tem nada a ver com inflação, não tem nada a ver com PIB pequeno ou coisas desse tipo. É uma revolta política, claramente política”, diz.

Na avaliação do historiador, os cartazes com dizeres contra os partidos políticos levados por manifestantes em diversas cidades do país evidenciam o que ele classifica como “uma rejeição à elite política e aos gestores públicos brasileiros”, causada por fatores que vão desde as más condições do transporte público ao modo como grandes eventos estão sendo organizados no país, passando por escândalos políticos como o mensalão.

Elio Gaspari em seu Blog da Folha de São Paulo escreveu:

Em dezembro de 1974, a oposição havia derrotado a ditadura nas urnas, elegendo 16 dos 21 senadores, e o ex-presidente Juscelino Kubitschek estava num almoço quando lhe perguntaram o que acontecia no Brasil. – O que vai acontecer, não sei. Soltaram o monstro. Ele está em todos os lugares.

Abaixou-se, como se procurasse alguma coisa embaixo da mesa e prosseguiu: – Ele está em todos os lugares, aqui, ali, onde você imaginar.

– Que monstro? – A opinião pública.

Dois anos depois JK morreu num acidente de automóvel e o monstro levou-o no ombros ao avião que o levaria a Brasília. Lá ocorreu a maior manifestação popular desde a deposição de João Goulart.

Em 1984 o general Ernesto Geisel estava diante de uma fotografia da multidão que fora à Candelária para o comício das Diretas Já.

– Eu me rendo –disse o ex-presidente, adversário até a morte de eleições diretas em qualquer país, em qualquer época.

Demorou uma década, mas o monstro prevaleceu. O oposicionista Tancredo Neves foi eleito pelo Colégio Eleitoral e a ditadura finou-se. O monstro voltou. O mesmo que pôs Fernando Collor para fora do Planalto.

No melhor momento de seu magnífico “Pós Guerra”, o historiador Tony Judt escreveu que “os anos 60 foram a grande Era da Teoria”. Havia teóricos de tudo e teorias para qualquer coisa. É natural que junho de 2013 desencadeie uma produção de teorias para explicar o que está acontecendo.

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