O psicólogo americano Robert Levine fez uma pesquisa em 31 países que resultou no livro A Geografia do Tempo, publicado nos anos 90. Em seu ranking da impontualidade, o Brasil aparece à frente apenas de Indonésia e México. Ele cita “Para os brasileiros, as pessoas que estão sempre atrasadas para seus compromissos são aquelas bem-sucedidas, e isso é um fato. Pessoas importantes mantêm seus subalternos esperando. Não que a falta de pontualidade seja a causa do sucesso, mas uma consequência. A falta de pontualidade é uma prova de suas conquistas.” Segundo Levine, “A espera é o sintoma de inferioridade social.

O antropólogo Roberto DaMatta ousa ainda afirmar: “Quanto mais poderosa a pessoa, mais esperamos por ela.” A agenda abarrotada costuma ser o argumento mais utilizado por profissionais das mais diversas áreas, e convenhamos, haja paciência. Aliás, suponho que seja daí que se origina o termo “paciente”. Alguém já se perguntou o porquê de consultas médicas raramente se procederem no horário?

Enquanto em nações como os Estados Unidos a ideia de que “tempo é dinheiro” é fortemente valorizada, no Brasil, as relações sociais possuem muito mais valor do que a pontualidade e o próprio dinheiro. Estudos recentes sinalizam que perdoar atrasos é algo arraigado na cultura nacional e que os brasileiros estão mais dispostos a desconsiderar tais atrasos para não perder a amizade. Talvez isso justifique o fato de acharmos que chegar 15 minutos depois da hora marcada no encontro ou reunião não nos trará grandes prejuízos.

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Em países como Alemanha, Japão, China, Inglaterra, dentre outros, chegar atrasado é uma ofensa e questão de desrespeito com o outro.

Estava assistindo um programa da TV alemã DN. Os apresentadores estavam entrevistando um grupo musical sueco. Quando perguntaram qual era a diferença entre eles, o sueco respondeu que os trens chegavam alguns segundos mais tarde. As diferenças culturais foram moldadas pela adesão à religião luterana que era oficial até 2000, professada por 62% dos suecos.

Peter Drucker, especialista em Organizações, dizia que reuniões são um sintoma de má organização. Poucas reuniões e curtas são preferíveis. Portanto, em uma Organização que realiza muitas reuniões, é provável que ocorram muitos atrasos.

Antje Jackelén, autora de Time&Eternity, lembra que Israel desenvolveu seu conceito de História como Julgamento. Os conceitos de contagem linear e cíclico coexistiram no registro bíblico desde a Criação com o Shabbat, o 7º dia, e com a expressão de Gênesis 8:22: “Enquanto durar a terra, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite.”

Alguns povos continuaram sua ideia de tempo como ciclos. Pode ser que esta ideia combinada com a ausência de contadores de tempo mecânicos e públicos, produziram uma falta geracional de pontualidade.

Em 1481, alguns cidadãos de Lyon (França) fizeram uma petição para erguer um relógio na cidade, na esperança de que ele os ajudasse “a levar vidas mais metódicas” e assim ficassem “mais felizes e contentes”. Comerciantes e industriais tornaram-se os principais advogados da exata observância do tempo. Depois de construir catedrais, nelas puseram torres de relógios, com o mesmo objetivo de mostrar que havia ordem no mundo.

Por volta de 1960, ainda era normal para um relógio de pulso adiantar-se ou atrasar um ou dois minutos por dia. Até que em 1974, os japoneses invadiram a Europa com o relógio de quartzo.

Em 2008, um trabalho da World Health Organization mostrou que pessoas que sofrem de Desvio de Déficit de Atenção e Hiperatividade conseguem perder, em média, a produtividade durante 143 dias em um ano. Para psicólogos, assim como os atrasados, eles são considerados “insensíveis ao tempo”.

Em 2001, Jeff Conte, professor de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, realizou um estudo no qual separou os participantes em pessoas Tipo A (ambiciosas, competitivas) e Tipo B (criativas, reflexivas, explorativas). Ele pediu-lhes para julgar, sem relógios, quanto tempo demorou um minuto. As pessoas do tipo A sentiram um minuto quando quase 58 segundos haviam passado. Os participantes de Tipo B sentiram um minuto depois de 77 segundos.

Oito aeroportos brasileiros estão entre os mais pontuais do mundo, segundo levantamento da consultoria britânica especializada em aviação, OAG, que avaliou os horários de partidas e chegadas dos voos. Esses terminais receberam a classificação máxima de cinco estrelas em voos operados na margem de 15 minutos em relação ao horário marcado.

Outros 16 pontuaram com quatro estrelas e seis aeroportos receberam três estrelas. O mais pontual é o terminal de Porto Seguro (BA), cuja taxa de pontualidade é de 87,8% e ficou em 19º lugar no ranking de 489 aeroportos pelo mundo.

Entre os principais terminais do Brasil que receberam cinco estrelas estão Curitiba (38º lugar), Brasília (39º), Confins (45º) e Porto Alegre (46º). O período analisado foi de outubro do ano passado a setembro deste ano.

Considerando os aeroportos que realizaram mais de 100 mil voos, o Juscelino Kubitschek (DF) foi o mais pontual do País. O Aeroporto do Galeão ficou em 68º lugar, Congonhas em 92º, ambos com quatro estrelas, Viracopos ficou em 150º e Guarulhos ficou em 171º, os dois com três estrelas. O Aeroporto de João Pessoa teve o menor índice pontualidade entre os 30 terminais brasileiros analisados pela OAG. Em todo o mundo, os terminais japoneses foram os melhores colocados.

(Credit: Getty Images)

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