Os processos de sincretismo e aculturação das mensagens cristãs e festas pagãs são temas de pesquisa crescentes e ajuste das narrativas históricas. É interessante conhecer a formação dos símbolos cristãos ao longo da História. Porém, é preciso reconhecer que comunidades cristãs, que estão em minoria em países asiáticos ou em declínio em países europeus, precisam preservar ou utilizar símbolos que ajudem na compreensão da fé cristã. Um dos efeitos desejados de um avivamento genuíno é que molduras culturais possam ser reformadas ou intercambiadas.
O Papa São Gregório Magno (590-604) teria dado ao último domingo antes da Quaresma (domingo da Quinquagésima), o título de “dominica ad carnes levandas”; o que teria gerado “carneval” ou carnaval. A partir desse momento, a Páscoa cristã deixou de ser sincronizada com a Pessach das comunidades judaicas.
Parece que a festa Saturnalia foi migrando de dezembro para o início do ano civil. Veja o que a The Grolier Multimedia Encyclopedia, 1997 nos diz a respeito:  “O Carnaval é uma celebração que combina desfiles, enfeites, festas folclóricas e comilança que é comumente mantido nos países católicos durante a semana que precede a Quaresma. Carnaval, provavelmente vem da palavra latina “carnelevarium” (Eliminação da carne), tipicamente começa cedo no ano novo, geralmente no Epifânio, 6 de Janeiro, e termina em Fevereiro com a Mardi Gras na terça-feira da penitência (Shrove Tuesday).”
Leni Ribeiro Leite afirma que a Saturnália foi comemorada até a Era Cristã, mas com o nome de Brumália (ocorria no início do inverno e era uma das festas em honra a Baco). Em meados do século IV, teria sido absorvida pela comemoração do Natal, havendo uma continuidade na prática da troca presentes oriundas do festival. Alguns autores também defendem a hipótese sobre haver uma relação entre a Saturnália e as comemorações do carnaval, devido ao caráter de inversão da ordem social ocorrido nos dias de festividades.
Saturnalia, festa que evocava a liberdade total
O festival da Saturnalia, celebrado entre 17 e 23 de dezembro, era dos mais desejados e segundo o poeta Catulo, a Saturnalia era “o melhor dos dias”. O edifício foi inaugurado pelo cônsul Tito Lárcio nos primeiros anos da República Romana. Em 42 a.C., o edifício foi completamente reconstruído por Munácio Planco.
A festa era tida como uma retomada completa da “era de Saturno”, quando o estado de igualdade entre todos seria maior que qualquer injustiça das instituições humanas. Um rei da festa, “Saturnalicius princeps”, era eleito por sorteio, todos se saudavam dizendo “io, Saturnalia” e trocavam presentes. Na época de Horácio, 66 dias por ano eram dedicados às diversas “festae”; na de Sêneca, sob governo de Tibério, eram 87.
Um século mais tarde, o ano seria dividido em 150 dias de férias, 215 dias de trabalho. O imperador Trajano, no começo do século 2 d.C., chegou a decretar quatro meses seguidos de “festae”.

“É o mês de dezembro, mas a cidade toda está coberta de suor”, escreveu o filósofo Sêneca no começo de uma carta. O motivo para as pessoas do hemisfério norte passarem calor em dezembro — e para Sêneca reclamar — era a agitação por conta da celebração da Saturnália. “Férias” vem de “feriae”, em latim, que eram os dias de festas religiosas, quando os romanos não trabalhavam. A maior de todas era a Saturnália, de início comemorada no dia 17 de dezembro. Depois, passou a durar três dias, e então, uma semana. Para Sêneca, parecia durar um ano.

Nos dias de Saturnália, apenas os cozinheiros trabalhavam, já que tinham que preparar os banquetes para as festividades. Fora isso, todos celebravam. Os escravos faziam as vezes de senhor, e os senhores, de escravo. Aos primeiros era dada total liberdade para debochar dos senhores, recriminá-los por abusos, maus tratos ou vícios. Podiam dizer todas as verdades em tom de piada, e o senhor era obrigado a achar graça. Quem não soubesse rir de si mesmo teria de pular de cabeça n’água. O escravo mandava, o senhor obedecia; os dois festejavam.
Em um de seus textos, Horácio escreve do ponto de vista de um escravo que, numa Saturnália, diz a seu mestre: “Quem sabe não é você o mais tolo de nós dois? […] Você, que tem controle sobre mim, é sujeito a tantas outras coisas; e é guiado como uma marionete, por fios e cabos que não domina”.

Natalis Solis Invicti, festa que celebrava o  solstício de inverno

Os romanos aproveitaram uma importante festa pagã realizada por volta do dia 25 de dezembro e “cristianizaram” a data, comemorando o nascimento de Jesus pela primeira vez no ano 354 AD. Aquela festa pagã, chamada de Natalis Solis Invicti (“nascimento do sol invencível”), era uma homenagem ao deus persa Mitra.

 

O título foi introduzido pelo imperador romano Heliogábalo, durante a sua tentativa abortada de impor o deus Elagabalo Sol Invicto, o deus-sol da sua cidade natal Emesa na Síria. Com a morte do imperador em 222 d.C., contudo, o seu culto esvaneceu-se. Finalmente, o imperador Aureliano introduziu um culto oficial do Sol Invicto em 270 d.C., fazendo do Deus Sol a primeira divindade do império. O culto do Sol Invicto continuou a ser base do paganismo oficial até a adesão do império ao cristianismo — antes da sua conversão, até o jovem imperador Constantino tinha o Sol Invicto como a sua cunhagem oficial. E depois, com o Édito de Milão, que concedia liberdade religiosa, houve o uso do símbolo do Chi Ro.

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