Depois de certo tempo na vida, passamos a observar mais o que as pessoas fazem em relação ao que dizem. Este é o grande desafio da igreja brasileira: os líderes da missão integral não vivem no meio do povo. Eventualmente, falam sobre o povo, visitam suas necessidades e promovem quem trabalha no meio deles. Mas estão longe do povo.

Além disso, existe um certo desequilíbrio entre uma vida devocional mais intensa e o trabalho entre comunidades pobres. Aqueles que falam sobre Missão integral se afastam do Carisma, especialmente no que se refere ao uso da música contemporânea e uma liturgia apropriada para adoração a Deus.

Howard Snyder, autor de Vinho novo e odres novos[1], diz que

“… a igreja do Novo Testamento vive uma vida de adoração, comunhão e testemunho. Essas funções são indicadas até certo ponto pelas palavras neo-testamentárias tais como leitourgia (“culto” ou “adoração”, de onde vem a palavra “liturgia”), koinonia (“comunhão” ou “compartilhamento”) e martyria (“testemunho” ou “depoimento”, de onde vem a palavra “mártir”). A igreja é uma comunidade ou uma fraternidade de vida compartilhada, uma koinonia. A igreja dá testemunho do que Deus fez em Jesus Cristo e em sua própria experiência, mesmo que o seu testemunho (martyria) possa levá-la ao martírio. Acima de tudo, a igreja desempenha o serviço de adoração (leitourgia) a Deus, não somente por meio de atos de adoração, mas mediante uma vida de louvor a Deus. A igreja como uma contínua doxologia.

sala de oração

O livro Atos dos Apóstolos descreve em 2:46a: “E, perseverando unânimes todos os dias no templo…”. No Evangelho de João 4:24, Jesus proferiu: “Deus é Espírito e importa que seus adoradores O adorem (proskuneo) em espírito e em verdade”. Na carta à igreja dos Romanos 12:1, o apóstolo Paulo aconselhou: “… Apresenteis vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus que é o vosso culto (latreountes) racional.”

  •  De origem grega, a palavra “leitourgia” é formada pelos vocábulos laos / leiton =povo, e ergon ( em latim = opus) = obra de serviço. Significava um serviço público, uma “prestação”. Era também utilizado para uma celebração religiosa concernente a todo o povo.
  • A tradução grega do Antigo Testamento apresenta a liturgia como sendo um “serviço religioso prestado pelos levitas a Javé, primeiro na ‘tenda’ e depois no templo de Jerusalém”.

Gilson Santos, no artigo Salmo 5 ao Atos 2, reconheceu que a partir da década de 80, os cânticos doxológicos predominaram graças à divulgação da mídia e o crescimento dos carismáticos no Brasil. Para ele, “os anos 90 chegaram e acentuaram uma tendência mais intimista…”.

Ele lembra que os salmos foram cantados pelos ancestrais protestantes e devem ser resgatados. O primeiro saltério foi impresso em 1565 por encomenda de Calvino. No primeiro culto protestante, no Rio de Janeiro, em 21 de março de 1557, o salmo 5 foi cantado em uníssono por todos os presentes.

A igreja, ao longo da história, tende a desenvolver cultura própria. A respeito disso, pergunta Lourenço Stelio Rega em artigo na revista Eclesia de março de 2009:

“Quando as pessoas batem palmas num culto é por achar bonita e emocionante a apresentação da música, como num show ou por que querem manifestar diante de Deus um estado de alegria, de adoração?”

Argumenta ele,

“se estaremos ouvindo a Palavra de Deus, o nosso Rei, então deveríamos ficar assentados, pois quando um rei fala, seus súditos devem ficar calados e assentados? Quando o súdito vai falar, é ele quem deve ficar de pé.”.

A dimensão LEITOURGIA, palavra grega utilizada para traduzir nosso culto e adoração a Deus, recebe a influência da expressão e da cultura dos povos bem como da adequação ao seu tempo. Pesquisas recentes mostram que o tempo e as músicas não têm diferido entre as igrejas evangélicas pesquisadas.

Ana Paula Valadão Bessa, no livro Adoração Diante do Trono[2], comenta:

“… em nossa cultura católica romana, todo tipo de esculturas e de pintura que retrate cenas bíblicas está ligado à idolatria. Mas se você viajar para algum país, como a Coréia do Sul, vai se impressionar com as obras de arte feitas para adorar o Senhor. São quadros, e até esculturas em tamanho natural, que enfeitam os jardins das igrejas protestantes. Há algum tempo, meu esposo viajou para a África do Sul. Nessa ocasião, ele fazia parte de uma igreja bastante tradicional, onde se cantavam apenas hinos e não se tinha liberdade nem para bater palmas. Ao chegar naquele país, ele participou de um culto em uma igreja de negros. Ficou impressionado com o modo de dançar e cantar dos irmãos. Eles produziam sons diferentes com a boca e louvavam a Deus com muita intensidade. Seus paradigmas estavam sendo mudados.”.

Segundo o missionário Leno Franco, citado no meu livro Missão da Igreja, dimensões e efeitos:

“… outra forma de choque eclesiástico é tentar levar o nosso modo de cultuar ao país aonde vamos. Na Bolívia e na Espanha o mais comum era cantar batendo palmas, elas fazem parte dessas culturas. Se alguém chega e diz que não vai ter palmas… o mesmo ocorreria dizer-se que na África não se poderia danças nas igrejas, ou que a liturgia de um culto deve ser a mesma em todos os países. Aqui na Espanha é comum os evangélicos tomarem cerveja e vinho. Nas igrejas batistas, as mulheres não usavam calça comprida. Imaginem, nevando e elas usando saia. Ali também as mulheres usavam véu no templo, são diferenças que não devem nos afetar. Nosso objetivo deve levar as pessoas a conhecerem a Jesus como seu Senhor e Salvador, e não perder nosso tempo com elementos secundários.”.

John Piper, pastor e escritor, escreveu no artigo A Supremacia de Deus em Missões pelo Louvor[3]:

“Missões não é o alvo final da igreja. Louvor é. Missões existem porque louvor não existe. O louvor é o auge, não missões, porque Deus é o auge, não o homem. Quando esta era terminar, e os milhões incontáveis dos redimidos se prostrarem diante do trono de Deus, missões terá terminado. É uma necessidade temporária. Mas, o louvor permanece para sempre.”

É uma corrida contra o tempo. O diabo se antecipou em muitos povos e suas culturas, semeando lendas e práticas religiosas que muitos defendem que hoje é cultura. Grupos armados, de trabalhos e pesquisas científicas, catalogam diversas expressões religiosas em decadência. Após um tempo de lobby político as chamam de patrimônio cultural imaterial. A partir daí, o uso de patrocínio de dinheiro público fica facilitado.

John Piper destaca ainda:

“Mas louvor é também o combustível de missões. Paixão por Deus no louvor precede a pregação oferecendo Deus aos outros.”

 A adoração congregacional equilibrada provoca o desejo de testemunhar e proclamar o evangelho. O choque cultural é inevitável. A separação da igreja e do mundo. O modelo bíblico judaico-oriental difere do modelo mental greco-romano ocidental.

Por isso que se diz que missões se iniciam em casa, na família. Ali começam as mudanças que mais nos causam impacto. Quando a família é transformada, passa a ser uma força na sua igreja e comunidade. A comunidade passa a enxergar a família como missionária. Ela representa sua igreja. O objetivo incontornável é transformar sua comunidade. Quanto mais famílias somarem na igreja, mais rapidamente a comunidade será transformada. A comunidade terá a adoração ao único Deus como sua expressão cultural e religiosa mais excelente e espontânea.

[1] SNYDER, Howard Vinho novo e odres novos – Editora ABU, 1997.

[2] BESSA Ana Paula Valadão. Adoração Diante do Trono – Diante do Trono Publicações, 2002

[3] PIPER John. A Supremacia de Deus em Missões pelo Louvor – Editora Cultura Cristã, 2001