Infelicidade custa caro. Mais exatamente, uns US$ 500 bilhões (ou R$ 1,7 trilhão) por ano para empresas americanas. A medição foi feita recentemente pelo instituto de pesquisa Gallup, e se refere à falta de compromisso/motivação do empregado em relação à empresa onde trabalha.

Em nome do lucro, portanto, o bem-estar do funcionário passou à pauta. Empresas gastam milhões com programas motivacionais e tentando entender o que causa a felicidade, e o escritor William Davies decidiu dedicar dois anos de sua vida à pesquisa do tema.

No livro “The Happiness Industry: How the Government and Big Business Sold us Well Being” (em tradução livre, “A indústria da felicidade: como o governo e grandes gmpresas nos venderam bem-estar”), Davies chama a atenção para a forma como nossas emoções têm sido manipuladas por Estados e empresas a fim de que, felizes, nos entreguemos ao trabalho de forma mais dedicada. No livro de 320 páginas, ele questiona ainda se a vilanização da tristeza é saudável.

“Cada dia mais enxergamos a depressão como uma versão negativa da positividade. O recado é: basta fazer com que as pessoas sejam mais enérgicas e superaremos a depressão. Isso ignora as causas da depressão; às vezes é preferível reconhecer que uma pessoa está infeliz e tentar entender por que ela está infeliz”, disse o escritor americano à Folha.

Davies argumenta que precisamos ser honestos a respeito da fonte de nossos estresses: muitas vezes, tais sensações incômodas partem das próprias empresas. Trata-se na verdade de um paradoxo: as condições de trabalho criam boa parte de nossa infelicidade e as empresas, sem mexer nas condições de trabalho que tanto nos sufocam, buscam produzir felicidade a todo o custo a fim de que rendamos mais e mais e, assim, continuemos empregados.

Por outro lado a tristeza é parte fundamental de nossas vidas e não deveria ser demonizada, especialmente para fins de lucro e produtividade.

“Cada dia mais enxergamos a depressão como uma versão negativa da positividade. O recado é: basta fazer com que as pessoas sejam mais enérgicas e superaremos a depressão. Isso ignora as causas da depressão; às vezes é preferível reconhecer que uma pessoa está infeliz e tentar entender por que ela está infeliz”, disse o escritor americano à Folha.

Davies argumenta que precisamos ser honestos a respeito da fonte de nossos estresses: muitas vezes, tais sensações incômodas partem das próprias empresas.

Trata-se na verdade de um paradoxo: as condições de trabalho criam boa parte de nossa infelicidade e as empresas, sem mexer nas condições de trabalho que tanto nos sufocam, buscam produzir felicidade a todo o custo a fim de que rendamos mais e mais e, assim, continuemos empregados.

Por outro lado a tristeza é parte fundamental de nossas vidas e não deveria ser demonizada, especialmente para fins de lucro e produtividade.

MEDIR A FELICIDADE

O autor explica que a indústria é capaz de medir felicidade das mais variadas formas. Algumas empresas americanas, em nome da produtividade, começam por exemplo a demitir os 10% “menos felizes”; há aquelas nas quais o fluxo de emails entre funcionários é avaliado por algoritmos a fim de entender quem é mais e quem é menos feliz.

Ele cita ainda vários outros aplicativos e engenhocas que permitem atribuir um coeficiente de felicidade a cada um, além de diversos programas que as empresas criam para monitorar o estado emocional e até nutricional dos seus funcionários.

Ou seja, o ponto de Davies é que, além de melancolia ser cada vez menos socialmente aceita, governos e empresas saberão quem são os mais melancólicos entre nós. Como a felicidade virou uma medição útil para o negócio de fazer dinheiro, vidas estão sendo espionadas.

FONTE: Folha de São Paulo