Um estudo desenvolvido na Noruega com uma amostra de 600 mil pessoas, desenvolvido por Hans Gravseth e colegas do Instituto Nacional de Saúde ocupacional de Oslo, a princípio encontrou que primogênitos tinham maior risco de cometer suicídio que filhos de outras gerações. O fenômeno foi mais percebido entre mulheres. Mas os resultados não pararam por aí.

“Ser ou não o primeiro a nascer, por exemplo, implica diferenças no investimento dos pais na criação e na necessidade de competir por atenção no ambiente familiar”, explica Catherine Salmon, psicóloga da Universidade de Redlands, nos Estados Unidos. Quem tem mais de um filho, em especial com grande diferença de idade, sabe que os mais novos são mestres nas artimanhas para chamar a atenção. A assessora Soraia Nigro, 45 anos, acostumou-se às peripécias da filha Laura, 7 anos, para se sobrepor à irmã Nathália, de 19 anos. Enquanto todos os olhares da casa não estão voltados para ela, a pequena não descansa. “Se a Nathália vem conversar comigo, a Laura imediatamente vem também e interrompe a irmã”, conta. “Sem contar as invasões que promove ao quarto da mais velha para usar os perfumes e a maquiagem dela.” Nathália, conta a mãe, era bem diferente da irmã mais nova quando tinha essa idade. “Ela nem imaginava o que era perfume ou maquiagem e era muito mais quieta”, diz Soraia.

Catherine descobriu que primogênitos e caçulas tendem a conseguir relacionamentos mais próximos de seus pais em comparação com os demais irmãos. Os irmãos do meio (middle children) recebem menor atenção dos pais, por isso se tornam “especialistas em amizades”.

A relação entre a ordem de nascimento e a inteligência faz parte de um certo folclore familiar. “Estudos têm mostrado que os primeiros filhos são qualificados por eles mesmos, seus pais e seus irmãos como sendo mais disciplinados, mais esforçados e mais inteligentes”, diz o psicólogo Frank Sulloway, da Universidade de Berkeley (EUA), que comentou o estudo.

Na amostra da pesquisa na Noruega, no entanto, o padrão é consistente. E, o mais revelador: filhos de famílias cujos primogênitos morriam e que eram criados no papel de mais velhos também mostravam maior QI -descartando-se, assim, efeitos biológicos. Para Sulloway, parte da explicação para o QI dos primogênitos pode estar na diluição dos recursos familiares. “Tipicamente, os mais novos estão em desvantagem na obtenção de recursos importantes: tendem a ser menos vacinados, são mais baixos e pesam menos.” Outra parte, ironicamente, pode estar nos caçulas. Ensinar irmãos mais novos deve beneficiar mais o tutor que o aprendiz, já que o ensino ajuda a organizar e expressar idéias.

Segundo Sulloway, os primogénitos são mais propícios a identificar-se com o poder e a autoridade, enquanto os mais novos tendem para a rebeldia, duas atitudes que transcendem os limites do lar. Vejamos dois exemplos: a maioria dos membros do Congresso dos Estados Unidos são primogénitos e a maior parte dos detidos por encabeçar piquetes de greve são irmãos mais novos, segundo um estudo de Richard Zewingenhaft, professor de Psicologia do Guilford College (Carolina do Norte). Os pioneiros da luta pela liberdade de expressão, a igualdade racial e sexual ou a abolição da escravatura também foram, maioritariamente, benjamins.

“Os mais velhos chegam antes e utilizam a sua superioridade em termos de força e tamanho para defender os seus privilégios. Por isso, são mais seguros, dominantes, ambiciosos e ciosos da sua posição. Os mais novos, menos poderosos, tendem a questionar o status quo e, em alguns casos, a desenvolver uma personalidade subversiva”, explica Sulloway. As principais revoluções científicas e teóricas surgiram pela mão dos mais novos da família (como Copérnico, Darwin, Bacon, Couvier, Descartes, Mendel, Lavoisier ou Voltaire) e contaram com a oposição dos filhos mais velhos (com uma posição firme no seio do poder estabelecido e mais reacionários à mudança). A título demonstrativo, o especialista estudou como foi recebida a teoria da evolução de Dar­win por 26 cientistas eminentes da época: 98 por cento dos que as apoiaram eram filhos do meio ou mais novos, enquanto 95% dos que as rejeitaram eram primogênitos.

Perante um primogênito típico (responsável, bom aluno, seguro de si próprio), os que chegam depois têm de procurar outras saídas para conquistar as boas graças do papai e da mamãe, como o encanto ou o sentido de humor. Além disso, aprender a manter a compostura perante a supremacia do mais velho reforça as suas capacidades de cooperação, diplomacia e adaptação, a par da aptidão para perceber o que passa pela cabeça de outra pessoa. “Quando se é menos poderoso, constitui uma vantagem saber antecipar-se a quem pensa o oposto”, indica Sulloway. Não é por acaso que se trata de diferenças que também se manifestam na política.

Os irmãos mais novos tendem a defender atitudes pacifistas e solidárias. Alguns exemplos são Gandhi, Martin Luther King, Rous­seau, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin ou Danton, um dos ideólogos da Revolução Francesa, o qual afirmou que preferia morrer na guilhotina do que guilhotinar, instantes antes de ser executado por ordem de um primogénito, Robespierre.

Pelo contrário, os mais velhos abundam entre os fascistas e os absolutistas, os racistas, os comunistas radicais e os defensores da pena de morte e da guerra. Ditadores como Estaline, Mao Tse-tung, Mussolini e Hitler e líderes democráticos como Churchill ou Roosevelt eram primogénitos, tal como George W. Bush.