Impressionante como as livrarias precisam abrir mais espaço para a enxurrada de livros classificados sob a categoria Auto-ajuda. “Goste do seu trabalho, seja qual for”. “A solução dos nossos problemas está dentro de nós”. “Se dois homens clamam pela sua ajuda, e um deles é seu inimigo, ajuda-o em primeiro lugar”.

Geralmente, são livros descolados do ambiente religioso porém produzidos por gente também deslocada da igreja do Senhor Jesus. O resultado é fazer gente agnóstica, ou seja, crêem em Deus mas não precisam seguir nenhuma religião. Isso produz gente que quer ser líder mas não admite ser liderado. Conhece pessoas assim? Pessoas que alcançam vitórias e oportunidades na família e se afastam da igreja. Porque se infectaram com esses livros.

O maior sucesso de vendas desse tipo de literatura até hoje registrado no Brasil, obviamente ainda não guardava a classificação auto-ajuda, foi O poder do pensamento positivo (1952), com 20 milhões de cópias em todo o mundo, do ianque Norman Vincent Peale (1898-1993), um pastor nova-iorquino. A editora responsável pelo título, a Pensamento-Cultrix, completou 100 anos em junho, com direito a comemorações no Museu da Língua Portuguesa (o livro foi escrito por um gringo), em São Paulo. Leva também o seu selo, uma espécie de precursor de infelicidades literárias no país, o Almanaque do pensamento, publicado pela primeira vez em 1912, onde, entre um aforismo e outro, era possível encontrar ajuda até mesmo para tirar manchas de roupas e saber as fases da lua.

Outra figura da empulhação positivista é Dale Carnegie (1888-1955), também ianque. Esse disseminador de tolices imperialistas começou ministrando aulas para adultos e, em 1912, criou o Treinamento Dale Carnegie, para enganar empregados, empreendimento transnacional, hoje inclusive líder mundial em treinamentos empresariais.

Para virar sucesso, deram-lhe inicialmente colunas em jornais especializados em conselhos positivistas, além de programas de rádio. Como fazer amigos e influenciar pessoas; Como evitar preocupações e começar a viver; Como falar em público e influenciar pessoas no mundo dos negócios; Como desfrutar da sua vida e do seu trabalho; O líder em você; Administrando através das pessoas; Lincoln — esse desconhecido; Como venceram os grandes homens.

Logicamente que toda essa literatice foi despejada nas colônias dos Estados Unidos, com estrondoso aparato publicitário, do México ao Chile – enquanto que os melhores autores nacionais, nos diversos países da América proletária não encontravam recursos para vender 100 mil exemplares internamente.

O investimento maior nesse tipo de leitura produzido por um brasileiro, no período “pós-abertura”, chegou com “obras” como Diário de um mago e O alquimista, de Paulo Coelho – por magia marqueteira da editora Rocco, no final da década de 1980 e início dos anos 1990. Em Diário…, Paulo Coelho chega a propor algumas medidas práticas de auto-ajuda, como o “exercício da crueldade”, que consiste em cravar a unha do dedo indicador na raiz da unha do dedo polegar toda vez que um “pensamento negativo” passar pela cabeça do “orientado”. Segundo o orientador, que nenhum hospício acolheu, dessa forma o sofrimento espiritual estaria sendo refletido no campo físico e, assim, os pensamentos ruins iriam embora…

Ainda que tenha catalogação própria na maioria das bibliotecas do país – inclusive na Biblioteca Nacional – a chamada literatura de auto-ajuda não se enquadra em qualquer gênero literário. Não se trata de livro didático ou pedagógico. Não é obra de referência. Não é livro técnico ou científico. Não é algum tipo de ficção: nem romance, conto, novela etc. Não é um gênero; é um filão de mercado.

Afinal, o que a farsa da auto-ajuda tem a ver com literatura, além de se materializar como escrita literária e tomar a forma de livro? Francisco Rudiger, professor da faculdade de comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi um dos primeiros a examinar a fundo o tema no Brasil. É de 1995 seu livro Literatura de auto-ajuda e individualismo– É chamada de literatura apenas porque se trata de livros e, portanto, algo que pode ser lido. O fenômeno não tem um significado literário, propriamente. As obras desse gênero se caracterizam por apresentar conselhos e regras de comportamento. A qualidade do texto costuma ser muito pobre. O importante, nele, são os segredos que pretende revelar aos interessados. Os autores não são escritores, mas pretendidos gurus modernos.

Somente em 2007 foram lançados quase 200 títulos para abarrotar as iluminadas prateleiras de auto-ajuda das maiores livrarias do país. O professor Francisco Rudiger ironiza: – A literatura de auto-ajuda funciona, sim. Mas não como ela promete. A eficácia do gênero está em promover o seu próprio consumo.

Algo semelhante ao que observa Leonardo Simmer, dono de uma jovem e pequena editora carioca, a Multifoco, que existe desde o ano passado e tem 15 livros no catálogo, entre romances, contos e poesia: – Na maior parte das vezes, as grandes editoras não escolhem o que publicam pelo valor literário. Os critérios são outros. Quem é o autor? Qual o potencial de venda da personalidade? Qual o potencial de venda do tema? A qualidade do texto e o que é dito passam a ser meros detalhes. Claro que as grandes casas são obrigadas a manter em seus catálogos alguns grandes nomes, já que isso é importante para sua imagem. Também é importante observar o contexto social. Assim como proliferam as igrejas evangélicas e seitas das mais diversas, que prometem mais dinheiro e felicidade, também há uma proliferação não só de leitores de auto-ajuda, mas também de autores de auto-ajuda, que buscam enriquecer em um mundo de miséria.

As livarias Saraiva e Siciliano, como a Livraria Cultura, estão repletas de títulos como Você já se abraçou hoje?, O que aprendi com meu carteiro sobre o trabalho e a vida?O motorista e o milionário – isso para não falar da avalanche de escritores de qualidade medíocre, como Dan Brown, autor de O Código da Vinci, mas que surge acompanhado de uma máquina publicitária estupenda, que faz sucesso antes de lançar o livro, que (anunciam) “vendeu milhares de exemplares na Europa e no USA”, sem que um único livro tenha saído do prelo etc.

Outro sucesso absurdo foi o livro “O Segredo”, que se transformou num documentário que fala sobre uma suposta “Lei da Atração” da física quântica que, segundo eles, “é a lei mais forte do Universo”. O filme prega que nós, homens, podemos conseguir tudo o que queremos: dinheiro, bens materiais, curas de doenças, bons relacionamentos pessoais, etc., através do “pensamento positivo”, bastando focar o pensamento naquilo que queremos, pois “tudo aquilo que pensamos se materializa, coisa boas ou ruins”. Usa, inclusive, a metáfora do “gênio da lâmpada”, onde o Universo é o “gênio” que atende aos nossos desejos conforme nossa vontade, tentando infiltrar na cabeça do espectador que a realidade é maleável, basta pensar positivo e tudo pode acontecer! Justificam que somente cerca de 1% da população da Terra é rica porque tais pessoas conhecem “o segredo”. E que pessoas famosas e importantes do passado, como Albert Einstein, Isaac Newton, Michelangelo, entre outros, foram bem-sucedidas porque também já conheciam “o segredo”. Muito lixo que corrompe a mente e o coração das pessoas. Para remover esses conceitos, é necessário discipulado de 3 a 5 anos.