A atitude messiânica de Chavez e seus correligionários corrói a Venezuela e infecciona os países vizinhos. O seu discípulo do Equador foi reeleito e o presidente da Bolívia pressiona o Congresso por um 3° mandato. O Brasil busca de todas as formas, inclusive apoio nas últimas eleições, em troca do sonho de assento na Comissão de Segurança da ONU. Um preço alto demais, a começar pelo preço da RNEST, refinaria em término de construção em Pernambuco. Até hoje, a parceira PDVSA não colocou um centavo na obra. Ela quer participar da Gestão! Com isso, poderia impedir a incorporação desta ao Refino da Petrobras, como a REFAP ficou durante muitos anos.

“Comandante, eu sou Chávez e levo joelhos ao chão”, disse o apresentador de TV Winston Vallenilla, diante de milhares de seguidores do presidente venezuelano, ministros e presidentes latino-americanos em Caracas. Ajoelhou-se.

A exibição de fervor de um dos rostos mais conhecidos da TV privada venezuelana –fez carreira na extinta RCTV, arqui-inimiga do chavismo cuja concessão não foi renovada em 2007– foi um ponto alto da cerimônia de 10/1, que marcou o início do quarto mandato de Hugo Chávez, só que sem ele.

“Com Chávez, joelhos ao chão!”, bradava, pouco antes, o funcionário público Andrés Velásquez, 45, que assistia ao ato diante do palácio presidencial de Miraflores, no centro de Caracas. “Rodilla en tierra”, no jargão militar brasileiro, se traduz por “posição de joelhos” ou “posição de atirador ajoelhado”, na qual o soldado firma um dos joelhos no chão e fica de prontidão para mirar e atirar. De joelhos, porém, também se venera e se reza.

Flexionada no plural pelo chavismo, a expressão marca a mistura tão venezuelana de fé e militarismo no martírio do presidente que trata um câncer há 19 meses. “O comandante dos mil milagres vai em sua batalha. Cada dia consolidando sua recuperação. Nós, na Caracas de Bolívar, esperamos”, disse o vice Nicolás Maduro, nomeado herdeiro político.

Batalha e milagre sempre andaram juntos no discurso de Chávez, o tenente-coronel reformado que prega a recuperação dos ideais do herói da independência Simón Bolívar (1783-1830), a união cívico-militar, o socialismo do século 21, o anti-imperialismo e uma espécie de cristianismo revolucionário.

 

Há 20 anos, derrotado na intentona golpista, Chávez foi obrigado a difundir pela TV uma mensagem de rendição a seus asseclas, no que seria a estreia de sua longa carreira em rede nacional. Após pedir um tempo para se recompor, o paraquedista surgiu de farda verde-oliva e boina vermelha, conforme conta a biografia “Hugo Chávez sem Uniforme” (Gryphus, 2006), de Alberto Barrera Tyszka e Cristina Marcano.

“Companheiros, lamentavelmente, por enquanto, os objetivos a que nos propomos não foram conseguidos na capital”, disse, rosto magro, olhos fixos na câmera. No embalo daquele “por enquanto”, Chávez chegou à Presidência, pelo voto, em 1998.

Veio a vitória que lhe deu um novo mandato, até 2019, com 55 % dos votos. Dois meses depois, foi feito o anúncio da recidiva. Numa noite de sábado, 8/12, Chávez disse pela primeira vez que o câncer poderia retirá-lo de vez do poder. Solene, indicou o ex-sindicalista Nicolás Maduro como seu delfim.

Segundo a BBC Brasil, esta situação favorável se sustenta por um clima de culto da imagem do presidente, criado pela direção do partido governista, o PSUV.

Por exemplo, diz que em numa reunião partidária para inscrever voluntários para a campanha presidencial em Petare, um dos bairros mais populosos de Caracas, a multidão de simpatizantes chavistas era embalada pelo som de tambores e o coro de um “mantra curativo”, alusivo a Chávez.

“Está salvo, está salvo, levanta a mão, levanta a mão”, cantavam. As canções foram interrompidas somente quando a voz de Chávez foi ouvida em uma gravação do hino nacional, cantado pelo mandatário em alguma das manifestações lideradas por ele antes da doença.

A “hiperliderança” de Chávez, criticada inclusive por setores chavistas, se tornou o principal aspecto de incerteza e crise no interior do governo. Com o líder enfermo, se torna ainda mais incerto o futuro do projeto político bolivariano.

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