De acordo com um estudo no New England Journal of Medicine (No. 346; Vol. 15) desta semana, as mulheres cujos parceiros sexuais são circuncisados poderão ter menos probabilidades de apanharem cancro do colo do útero. O estudo demonstrou que os homens com o prepúcio intacto tinham três vezes mais probabilidades que os homens circuncisados de estarem infectados pelo vírus do papiloma humano. Isto, por sua vez, poderá aumentar o risco de transmissão do vírus às suas parceiras sexuais. A teoria é de que o sulco balano-prepúcial é especialmente vulnerável ao vírus. Isto também levanta questões sobre se a circuncisão pode reduzir a propagação do HIV. Estudos datados de pelo menos 1988 sugeriam que a circuncisão oferece alguma proteção contra a SIDA, mas as investigações não o provam, e estudos mais definitivos estão a ser realizados.

Dirigido por investigadores em Espanha e outros quatro países e suportado pela International Agency for Research on Cancer em França, o estudo sobre o cancro do colo do útero observou cerca de 3800 mulheres, metade das quais tinham cancro do colo do útero e a outra metade não tinha cancro. Havia apenas uma ligeira diferença total entre os dois grupos acerca de quantas tinham parceiros circuncisados e não-circuncisados. Mas os investigadores encontraram uma forte diferença no risco de cancro do colo do útero no caso das mulheres cujos parceiros eram especialmente activos sexualmente. Mulheres cujos parceiros de alto risco não eram circuncisados eram cinco vezes mais prováveis de desenvolverem cancro do que as mulheres cujos parceiros eram circuncisados. Os homens de alto risco eram definidos como aqueles que já tinham tido pelo menos seis parceiras sexuais e que iniciaram a sua vida sexual com menos de 17 anos de idade.

Mas Ronald Goldman, director executivo do Circumcision Resource Center, que se opõem ao procedimento, disse que o estudo não é fiável porque utiliza dados de sete estudos em cinco países. Ele disse “Cortar uma parte do corpo saudável que funciona normalmente para prevenir uma improvável doença ou infecção seria como arrancar dentes saudáveis para prevenir a infecção dentária”.

Circuncisão reduz risco de infecção por herpes, afirma estudo

Segundo Dr. Drauzio Varella,

“Hoje ninguém mais discute: em homens heterossexuais, ela reduz em 50% a 60% os índices de transmissão do HIV. Os epidemiologistas calculam que 3 milhões de vidas poderiam ser salvas, apenas na região abaixo do deserto do Saara, caso esse procedimento cirúrgico fosse colocado à disposição. Além da proteção contra o HIV, homens circuncidados apresentam menos infecções pelos papilomavírus, pelo treponema da sífilis e pelos vírus do herpes genital.”

A circuncisão é costume praticado há mais de cinco mil anos pelos egípcios e outros povos, incluindo os etíopes. “A Bíblia relata que na época de Abraão a circuncisão já era conhecida e praticada às margens do rio Jordão e na Samaria”, diz artigo do antropólogo e psicanalista Malek Chebel, especialista no mundo árabe e no Islã, e que essa prática está inscrita neste livro sagrado desde o início:

“E a aliança que eu faço com vocês e com seus futuros descendentes, e que vocês devem observar, é a seguinte: circuncidem todos os homens. Circuncidem a carne do prepúcio. Este será o sinal da aliança entre mim e vocês. Quando completarem oito dias, todos os meninos de cada geração serão circuncidados; também os escravos nascidos em casa ou comprados de estrangeiros, que não sejam da raça de vocês” (Gênesis 17:10-11).

Hoje, 56% dos recém-nascidos nos EUA são circuncidados-cerca de 1 milhão a cada ano. As taxas mais elevadas estão em áreas onde há uma tradição cultural ou religiosa (como entre os judeus e os muçulmanos). No Brasil, não há estimativas. Segundo a academia americana, a decisão ocorreu após estudos feitos nos últimos sete anos atestarem os benefícios do procedimento. Um deles diz que há uma redução de 90% no risco de infecções urinárias no primeiro ano de vida.

“É impossível continuar neutro após evidências tão robustas”, diz o pediatra Paulo Cesar Nogueira, membro do departamento de nefrologia da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria). Mas, segundo ele, não deve haver nem nos EUA nem no Brasil uma recomendação expressa para que todos os meninos sejam circuncidados. “Continuará sendo uma decisão exclusiva dos pais.”

Pesquisadores de Uganda e da Universidade Johns Hopkins, nos EUA, descobriram que a circuncisão pode evitar doenças sexualmente transmissíveis (DST). O estudo constatou que os homens que se submetem a essa operação têm menos chances de contrair herpes genital (HPV). O HPV é responsável por 99% dos casos de câncer no colo do útero e tanto em homens como em mulheres provoca verrugas na região genital. Além disso, a circuncisão reduz também o risco de infecção pelo vírus HIV.

Durante o estudo, cerca de 3 mil homens foram monitorados em suas atividades durante o período de dois anos, constatou-se que homens circuncisados têm 25%  de chances a menos de contrair herpes. “Esses novos dados devem levar a uma grande reavaliação do papel da circuncisão masculina não apenas na prevenção do vírus HIV, mas também na prevenção de outras infecções sexualmente transmissíveis”, afirmaram Matthew Golden e Judith Wasserheit, da Universidade de Washington à revista especializada “New England Journal of Medicine”

POLÊMICA

“Do ponto de vista médico, os benefícios da circuncisão na redução de riscos de doenças ultrapassam os pequenos riscos envolvidos no procedimento”, disse o pediatra Andrew Freedman, coautor da revisão publicada na “Pediatrics” que embasou a nova orientação.

Ainda assim, a postura da academia é polêmica. Médicos dizem que as evidências científicas sobre os benefícios são questionáveis e que o procedimento expõe crianças a riscos desnecessários. Para o professor Antonio Macedo Júnior, chefe do grupo de uropediatria da Unifesp, só crianças com indicações clínicas (como as que têm malformações congênitas do trato urinário) devem se submeter à circuncisão. “Há riscos de infecção ou mesmo anestésicos no procedimento que precisam ser levados em conta.” Fora essas situações, segundo ele, a circuncisão seria justificada em regiões onde há muito câncer de pênis associado à falta de higiene ou em locais com alta incidência de HIV.

A decisão americana ocorre num momento em que há declínio na cobertura das circuncisões por parte das seguradoras de saúde em ao menos 18 Estados americanos.

Em junho deste ano, um tribunal regional de Colônia, no norte da Alemanha, declarou que o ritual era um crime, o que provocou a indignação de representantes de grupos judeus e muçulmanos. O governo propõe, agora, legalizar a prática, mas com recomendações: a tradição deve ser realizada por pessoas capacitadas e os pais das crianças terão de ser informados sobre os malefícios do ritual.

O ritual, conhecido como metzitzah, é comum entre os 1,1 milhão de judeus ortodoxos que residem na cidade de Nova York, e o assunto é extremamente sensível para a comunidade hassídica. Nesse procedimento realizado em recém-nascidos, o mohel (que realiza a circuncisão), depois de remover o prepúcio, suga, com a boca, o sangue causado pelo corte no pênis do bebê.

O antigo rito religioso tem sido motivo de críticas severas da comunidade científica. Especialistas afirmam que ele pode causar sérios problemas de saúde e até mesmo a morte ao circuncidado. A região de Nova York tem a maior população judia do mundo fora de Israel e representa cerca de um terço dos judeus vivendo nos Estados Unidos (aproximadamente 6 milhões).

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