O estudo sobre a biopolítica realizado em Foucault começa por meio de uma metodologia que se poderia denominar de Genealogia da Forma de Governar ao analisar as influências do mercantilismo no que ele denomina por razão de Estado durante os séculos XVI e XVIII. “O que é governar? Governar segundo o princípio da razão de Estado é fazer que o Estado possa se tornar sólido e permanente, que possa se tornar rico, que possa se tornar forte diante de tudo o que pode destruí-lo”.

Contudo, Foucault não quer entender a população como algo, digamos assim, vivo. Isto é, a população não é “quem”, mas “o que”, porque é um construto. Antes de destacar o conceito de população, Foucault (2008) analisa o conceito de ‘razão de Estado’, que teria sido formado nos séculos XVI e XVII. A noção de uma ‘razão de Estado’ dava ao soberano o direito de matar, mas para fazer viver. A população é que deveria ser preservada, pois dela vinha toda a riqueza do reino, pois constituíam tanto a força produtiva quanto a força de consumo, responsável, então, pela circulação de bens. Já por volta da metade do século XVIII, engendrou-se uma nova política centrada no “corpo-espécie”. Isto é, um corpo biológico: capitado demograficamente, com regulações que interferem ou controlam a sua saúde, a sua longevidade, a partir de uma série de intervenções e controles reguladores: uma biopolítica da população.

Rémi Lavergne comenta no seu artigo Bolsa Família: uma nova modalidade de biopolítica: “Essa infiltração capilar e política na intimidade das famílias “em situação de vulnerabilidade social” se conecta sobre os pilares da normalização que são, desde o século XIX, a escola, a medicina preventiva e as redes de saúde pública e de assistência social. Através deles, trata‑se de tecer estratégias normativas cujo foco principal é a vida com vistas à prevenção dos riscos sociais. “Prevenção” constitui a palavra de ordem difundida por experts e monitores que promovem
novas prescrições de cuidado e de governo de si para tornar o governo da família ainda mais eficiente porque as condições do programa favorecem uma forma de solidariedade mecânica onde os recursos disponíveis são escassos.”

De volta à cena pública, depois de meses em tratamento contra o câncer, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anunciou a criação de um novo programa social para erradicar a pobreza no país, nos moldes do Bolsa Família. O projeto “Filhos do meu povo”, que unifica os antigos programas sociais, prevê que até três filhos de cada família em situação de extrema pobreza recebam, cada um, 430 bolívares (o equivalente a US$ 100 ou R$ 188) por mês. Com um investimento equivalente a R$ 4,3 bilhões em 2012, a medida é lançada a menos de um ano das decisivas eleições presidenciais. Chávez pretende disputar mais uma reeleição em 2012, para um terceiro mandato presidencial.

Segundo Chávez, o programa permitirá ao país “acabar com a miséria e o atraso”. O programa priorizará cerca de 800 mil mulheres grávidas, além de crianças ainda nos primeiros anos de vida. O beneficio também será estendido a cerca de um milhão de jovens de até 17 anos. Famílias cujos filhos tem deficiência física receberão ajuda no valor de 600 bolívares (o equivalente a US$ 139,50 ou R$ 263), sem limite de idade. Uma das condições para o recebimento do benefício é manter as crianças na escola e, no caso das gestantes, acompanhar a rotina médica pré-natal. “Essa missão é só uma ponte para passar a um estado de vida superior (…) com seu próprio esforço, através do trabalho produtivo e criador”, afirmou Chávez.