A navegação holandesa era um instrumento eficaz na guerra contra a Espanha que desde 1580 dominava Portugal. Além de pregar aos domingos em Amsterdã, o pastor Petrus Plancius ensinava a arte da navegação aos marinheiros durante a semana. A guerra contra a Espanha era uma guerra de libertação religiosa.

Henry Mechoulan, autor de Dinheiro e Liberdade, comenta sobre a fé de Guilherme de Orange que morreu lutando contra a Espanha em março de 1582, após a declaração de independência das Províncias Unidas. Graças à intervenção de Elizabeth da Inglaterra, a Europa assistiu admirada a primeira revolução moderna: algumas províncias rebeldes proclamaram a queda de seu soberano e tomaram o seu destino nas próprias mãos.

Mechoulan estima que Amsterdã tinha 30 mil habitantes, em 1585. Em 1622 passou para 105 mil. Imigrantes das províncias do sul, alemães, calvinistas, judeus viviam no mesmo espaço. Alguns anos de permanência no país, 50 guilders ou o casamento com uma pessoa já estabelecida permitiam adquirir o direito de cidadania, necessário para exercer um ofício e pertencer a uma guilda.

Em 20 de março de 1602, mercadores holandeses fundam a corporação Verenigde Oost Indische Compagnie, a Companhia das Índias Orientais.  Os mercadores de Amsterdã e de outras cidades investem 6,6 milhões de florins nesse projeto, treze vezes mais que seus rivais de Londres, que haviam fundado a Sociedade dos Mercadores de Londres. A VOC recebe do príncipe de Orange o privilégio exclusivo de comércio com as Índias e de construção de fortes. Era uma companhia secular com o propósito de enriquecer seus sócios. Um de seus incentivadores era o pastor Godefridus Udemans que se tornou o “apóstolo das companhias”, que escreveu vários livros entre os quais “Leme espiritual do Navio mercante”.

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Em 1605 mercadores holandeses da VOC, armados, capturaram o forte português de Amboyna (ou Ambon), nas ilhas Molucas; em 1619, invadiram Jacarta, que renomearam Batavia (o nome latino dos Países Baixos) e transformaram em sua capital; em 1682, tomaram Bantam, que era o último porto importante ainda em mãos dos nativos. A partir dessa altura, a colónia das Índias Orientais Holandesas, atual Indonésia, passou a ser administrada pela VOC, até à sua liquidação, em 1799. Concentrando o seu monopólio nas especiarias, os holandeses encorajaram a monocultura: em Amboyna, o cravinho, no Timor, sândalo e nas Bandas, a noz moscada.

Em 1608, o retorno acumulado das primeiras companhias de navegação de Amsterdã entre 1595 e 1602 chegava a 15 milhões de florins, contra um investimento total de 9 milhões. Em 1631, a VOC tinha pago dividendos num total de 11 milhões de florins. Estima-se que o total de empreendedores urbanos na República Holandesa alcançou 60 mil. Empreendedores que precisavam de dinheiro cediam o direito a seus rendimentos de um ano (rente) em troca de grande soma.

Findlay e O’Rourke destacam que o embate entre a república da Holanda e o império ibérico dos Habsburgos, no século XVII, alcançou quatro continentes e sete mares. Esta teria sido a primeira guerra globalizada com reflexos na Ásia e América. A Inglaterra se preparava para tomar proveito do fim do reinado Habsburgo.

David Landes conclui que na Idade Média tardia, devido às condições cada vez piores de solo criaram uma vantagem comparativa para os camponeses da Holanda, especializados na produção de laticínios, na navegação, na pesca e na produção de têxteis. A classe média consistia de dezenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras independentes que levavam uma vida confortável na sociedade holandesa urbanizada.

Brasseul também concorda que o século XVIII foi o século da Holanda, a “nação capitalista por excelência”. O país se tornou um refúgio para eruditos e pensadores, para judeus expulsos da Espanha e Portugal, huguenotes perseguidos na França. A prosperidade atinge níveis sem precedentes e 50% dos holandeses viviam em cidades. As Províncias Unidas são uma exceção na Europa monárquica.

Foram 3 pilares do sucesso holandês: o Banco de Amsterdã, criado em 1609, com baixas taxas de juro; a frota composta por centenas de corvetas comerciais; e a Companhia das Índias Orientais, que tinha na Ásia os poderes de um verdadeiro Estado.

Em 1669, a VOC era a mais rica companhia privada do mundo, com mais de 150 navios mercantes, 40 navios de guerra, 50 000 funcionários, um exército privado de 10 000 soldados e uma distribuição de dividendos de 40%.

Depois da Quarta Guerra Anglo-Holandesa (1780-1784), a VOC começou a ter problemas financeiros e foi liquidada em 1799. No Congresso de Viena, em 1815, as Índias Orientais Holandesas foram oficialmente transferidas para a coroa holandesa.

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