Em setembro de 2015, houve uma denúncia de que, intencionalmente, a Volkswagen havia colocado dispositivos de controle em seus motores diesel para adulterar os níveis de emissões. Cerca de 11 milhões de veículos no mundo tinham um programa “subversivo” instalado. A descoberta levou a uma imediata queda no preço das ações da Volkswagen, a investigações do governo na América do Norte, Europa e Ásia, à renúncia do CEO e suspensão de outros executivos, uma perda recorde em 2015 e uma conta estimada em US$ 19 bilhões para corrigir o problema. O escândalo causou um dano incalculável à marca Volkswagen.

Suponha que você é engenheiro no México, executivo de RH nos Estados Unidos ou expert em logística na Polônia. Você trabalhou na Volkswagen de 2004 a 2008, antes de os novos controles de emissões serem instalados, e nunca trabalhou nas divisões que criaram o programa fraudulento. Tempos depois, você começou a se sentir insatisfeito no emprego e pensou na possibilidade de mudar. Sua associação de tanto tempo com a VW não seria um problema — certo?

Errado. Nossa pesquisa mostra que executivos em cujo currículo aparecem empresas contaminadas com um escândalo são prejudicados no mercado de trabalho, mesmo que, claramente, não estejam envolvidos no problema (ver quadro “Sobre a pesquisa”.) Em geral, a remuneração desses executivos é aproximadamente 4% menor que a de seus colegas de mesmo nível. Considerando que a remuneração inicial num emprego influi fortemente na remuneração futura, a diferença pode se tornar muito significativa ao longo da carreira.

Uma porcentagem surpreendentemente alta de profissionais está vulnerável a esse tipo de viés. Em nossa amostra de executivos que mudaram de emprego, 18% tinham trabalhado em empresas envolvidas em escândalos financeiros. Obviamente, se as empresas que não se envolveram em escândalos financeiros — questões de segurança de produto, disputas trabalhistas, relacionamentos vergonhosos com clientes e assim por diante — fossem incluídas, a proporção seria ainda maior. Como o efeito do escândalo é duradouro, ele pode impactar negativamente a mobilidade de emprego atual e futura, mesmo que a pessoa esteja desligada da empresa há muito tempo. Esse risco não pode ser controlado, mas você pode e deve se preparar para ele.

Reportagem publicada no Valor Econômico, com título “Trabalhei na Odebrecht: o que vou fazer agora?”,  destaca quem atuava diretamente em áreas do grupo relacionadas a negócios que envolvem o governo ou compliance vai ter mais dificuldade. “Quanto mais sênior, mais complicado também”, afirma Ricardo Basaglia, diretor-executivo da empresa de recrutamento da Michael Page. Ele conta que o número de currículos de profissionais demitidos de construtoras triplicou nos últimos anos, por conta do cancelamento de contratos e denúncias na Operação Lava-Jato. “Chegam currículos até de quem ainda está empregado”, diz. No geral, a Michael Page recebe, em média, três mil currículos por dia. O fato de o setor de infraestrutura estar quase parado atrapalha ainda mais os candidatos. “Os leilões de aeroportos deram um fôlego, mas não é o suficiente para abrigar tantos

A consultora Karin Parodi, sócia-fundadora da Career Center, diz que também tem recebido muitos profissionais demitidos de empresas envolvidas em escândalos que estão em busca de aconselhamento para planejar o futuro. “Acho que o principal conselho é resiliência”, diz. Ela diz que, no caso da Odebrecht, a empresa tem uma cultura forte, independentemente do que aconteceu depois. “O clima era de muito trabalho em equipe, preparação de sucessores e quem estava embaixo não tinha controle sobre os fatos”, diz.

“O cidadão brasileiro está revoltado com toda a situação”, diz o headhunter Rodrigo Forte, sócio da Exec. Ele diz que os profissionais de empresas envolvidas em escândalos vão passar pelo crivo do mercado. O papel do headhunter é diminuir o risco da contratação, e, nesse caso, é necessário redobrar a investigação sobre o candidato. “Infelizmente os honestos pagam o pato”.

“Dizer que não existe dúvida é uma mentira”, afirma Basaglia, da Michael Page. Ele diz que os ex-funcionários da Odebrecht precisam estar preparados para responder perguntas duras. “Para nós, vai interessar o detalhe”, diz. Ele recomenda que, se por acaso o fato de ter trabalhado no grupo não for colocado na mesa durante a entrevista, o próprio candidato deve trazer o assunto à tona. “Não falar pode significar algum preconceito ou uma opinião não adequada.”

Empresas atingidas por escândalo são estigmatizadas da mesma forma que os profissionais. Outras organizações podem romper relações com elas ou tentar tirar vantagem financeira da situação. Empresas estigmatizadas podem ser ridicularizadas na mídia, ter suas doações assistenciais rejeitadas, ver o moral dos funcionários despencar e vivenciar um êxodo de talentos. E o estigma organizacional é contagioso, não só para os funcionários, mas às vezes até para outras empresas do mesmo setor corporativo que não cometeram nenhum deslize.

As mulheres são mais prejudicadas pelo efeito do escândalo que os homens: sua remuneração é 7% menor, enquanto a dos homens é somente 3% menor. E ter estudado em universidade de elite aparentemente protege contra esse efeito.

Em geral, recrutadores fazem uma due diligence maior com candidatos de empresas envolvidas em escândalo. “Além de fazer o processo padrão 360, é provável que conversemos também com outras pessoas”, comentou um recrutador. “Em média, num processo regular, conversamos com cinco a oito referências. Talvez precisemos consultar de oito a dez para ficarmos seguros em relação a profissionais ligados a uma empresa envolvida em escândalo. Se eu for cliente, posso até querer conversar com algumas dessas referências diretamente. Além disso, eu certamente recomendaria uma checagem do background por terceiros, bem como um atestado padrão de antecedentes criminais”.

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