Quantos animais de cada espécie Moisés levou na Arca?

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Sim, é verdade que segundo a Bíblia, o Alcorão e outras fontes, a Arca foi construída como um grande navio onde um casal de cada espécie de animais existente no Mundo seria levado de modo a ficar a salvo do grande dilúvio; porém, segundo as mesmas fontes, o único humano poupado por Deus, que construiu e conduziu a Arca, foi Noé e não Moisés.

A Ilusão de Moisés é o mais clássico exemplo; quando inquiridos sobre “Quantos animais de cada espécie levou Moisés na Arca?”, a maioria dos indivíduos responde “dois”, falhando em notar que foi Noé e não Moisés que levou os animais na arca (Erickson & Mattson, 1981). Tais ilusões não resultam da falta de conhecimento – quando a pergunta é “Quem levou os animais na arca?”, os mesmos indivíduos respondem “Noé” e não “Moisés” – mas sim de representações semânticas que são computadas de forma superficial e incompleta.

Na pesquisa, 24 estudantes voluntários da Universidade de Glasgow foram submetidos a um eletroencefalograma, exame que mede a atividade cerebral, enquanto os cientistas faziam 135 perguntas. Além daquela sobre o número de animais que “Moisés” abarcou em sua arca, apareceram outras como: “Um homem deveria se casar com a irmã de sua viúva?”. Leuthold conta que metade dos participantes pararam para pensar, questionando os aspectos morais que poderiam estar envolvidos em uma união dessas. “O problema é que não há muito o que analisar aí. O homem não pode se casar com a irmã de sua viúva porque, infelizmente, ele está morto”, brinca o cientista, lembrando que, nessa frase, a confusão se deve à presença de dois termos que designam relações familiares.

Sem perceber
Enquanto eram interrogados, o padrão de atividade cerebral dos voluntários foi avaliado pelo pesquisador. Constatou-se que não houve qualquer alteração quando palavras que se encaixavam na frase, mas não faziam sentido, eram inseridas nas perguntas. “Isso significa que o cérebro nem percebe o que está acontecendo”, diz Leuthold. O interessante, destaca ele, é que saber o assunto do teste não interferiu nos resultados. Mesmo informados que seriam confrontados com perguntas que podiam conter pegadinhas semânticas, o cérebro dos voluntários não identificou os erros.

É diferente, por exemplo, de quando se afirma a alguém: “David unta seu pão com a meia”. Pesquisas sobre atenção e compreensão geralmente incluem frases do tipo e constatam que a atividade cerebral se modifica. “O cérebro está reconhecendo que há algo de errado porque não tem lógica nenhuma você pegar uma meia, enfiar no pote de manteiga e besuntar seu pão com ela”, explica Anthony Sandford, também psicólogo da Universidade de Glasgow e participante do estudo, ressaltando que o que confunde as pessoas é o contexto em que a palavra está inserida.

Leuthold e Sandford explicam que, muitas vezes, quando um fato é narrado, o interlocutor costuma usar seu repertório de informações visuais para acompanhar a história, e isso pode influenciar também a probabilidade de ocorrer uma ilusão semântica. Por exemplo, ao dizer para alguém que houve um acidente de avião, a pessoa, provavelmente, vai imaginar um cenário catastrófico. Em seguida, pergunta-se onde ela acha que os sobreviventes deveriam ser enterrados. “Mais uma vez, metade dos voluntários do nosso estudo não percebeu que ‘sobrevivente’ estava no lugar de ‘vítimas’”, conta Sandford.

Quando, porém, se dizia que houve um acidente de bicicleta e se perguntava a mesma coisa, os participantes percebiam que a palavra “sobrevivente” não fazia sentido. “Esse é um termo que, geralmente, acompanha uma história sobre acidentes aéreos. Mas não costuma estar associado a acidentes de bicicletas. Você pode ler que uma bicicleta se chocou contra uma mureta, e a vítima foi levada ao hospital. Porém, dificilmente vai ler que a bicicleta bateu no muro e os sobreviventes receberam socorro. No seu repertório visual, a imagem é de um ciclista caído no chão, e não de uma boa quantidade de gente no meio de uma mata – os sobreviventes –, como costuma ser o cenário de um acidente aéreo”, explica o psicólogo.

Problema de foco
Além do contexto, o foco da frase pode contribuir para a ocorrência da ilusão semântica, segundo psicólogos da Academia Chinesa de Ciências que também estudaram o assunto. Eles fizeram duas perguntas relacionadas ao mesmo tema, como: “Que tipo de vegetais Ming comprou para cozinhar hoje?” e “Quem comprou os vegetais para cozinhar hoje?”. Em seguida, apresentavam duas respostas possíveis: “Ming comprou berinjelas para cozinhar hoje” e “Ming comprou bife para cozinhar hoje”. “Quando o foco da pergunta foi o tipo de vegetal, as pessoas rapidamente escolhiam a opção das berinjelas, rejeitando a resposta que envolvia carne. Mas, na segunda pergunta, o foco é ‘quem’. Muitos voluntários que participaram da pesquisa se fixaram nessa informação e não perceberam nada de errado no fato de que, no lugar de um vegetal, a resposta citasse bife”, conta Yufang Yang, coautor da pesquisa. Para ele, isso indica que a ilusão semântica é um fenômeno relacionado à atenção.

Hartmut Leuthold concorda com a questão do foco e afirma que, se a construção da frase privilegiar o mais importante, citando essa palavra primeiro, a probabilidade de ocorrer ilusão semântica é menor porque se tende a prestar menos atenção a termos que aparecem no fim de uma sentença. “Uma boa maneira de não ser mal interpretado é usar a forma ativa. Na construção passiva, como ‘A maçã foi comida por Bob’, tendemos a nos confundir mais”, afirma. Da mesma forma, ao executar múltiplas tarefas, como conversar e ler ao mesmo tempo, o foco fica comprometido. Nesse caso, corre-se o risco de responder “dois” quando alguém perguntar a quantidade de animais de cada espécie que Moisés colocou na arca.

Fonte: Estado de Minas, postado em 25/07/2012.

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