A forma da vitória de Trump expõe a base social do movimento que ele mobilizou. Observar o mapa eleitoral demonstra que o apoio a Hillary se concentrou geograficamente nas cidades ao longo das duas costas dos EUA, enquanto as regiões rurais e as pequenas cidades votavam maciçamente em Trump.

A virada mais surpreendente veio na Pensilvânia, Michigan e Wisconsin, três Estados industriais do norte do país que foram tão solidamente democratas nas eleições presidenciais recentes que Hillary nem mesmo fez viagens de campanha ao terceiro deles. Trump venceu ao conquistar o voto dos trabalhadores antes sindicalizados que foram prejudicados pela desindustrialização, prometendo que voltaria a tornar os EUA grandes ao restaurar os empregos industriais perdidos.

É a história do “brexit”, quando a votação em favor da saída britânica da União Europeia se concentrou igualmente nas áreas rurais e pequenas cidades, longe de Londres.

Mas o nacionalismo populista é um fenômeno muito mais amplo que isso. Vladimir Putin continua impopular junto aos eleitores de bom nível educacional nas grandes cidades russas, como São Petersburgo e Moscou, mas tem ampla base de apoio no resto do país. O mesmo se aplica a Recep Erdogan, o presidente da Turquia, que conta com apoio entusiástico de parte da classe média baixa.

A classe social, hoje definida pelo nível educacional da pessoa, parece ter se tornado a fratura social mais importante em incontáveis países industrializados e de mercado emergente. Isso é propelido diretamente pela globalização e pela marcha da tecnologia, que foram facilitadas pela ordem mundial liberal criada em larga medida por influência dos EUA, de 1945 em diante

Alguns países apresentam outra relação com a Democracia, através da difícil construção de maioria parlamentar para garantir o Governo. A monarquia enfrenta aumento da impopularidade mas é a forma a de governo de 51 nações em todo o mundo e existem ainda outras 37 monarquias sub-nacionais (dentro de outros estados independentes não monárquicos). O termo “monarquia”, entretanto, não designa um único sistema político ou a mesma forma de governo em todos os países, mas sim, reflete a cultura política de cada povo no governo de sua nação. Assim, temos:

  • Andorra é um co-principado onde dois regentes dividem igualmente a função de regente sendo que nenhum deles é hereditário. Um é o Bispo de Urgel, na Espanha, nomeado pelo Papa. O outro é o presidente eleito da república da França.
  • Cinco destas monarquias não são hereditárias, mas sim, eletivas. Na Malásia, nos Emirados Árabes Unidos e no Camboja o monarca é eleito entre os membros da nobreza sendo que, na malásia, o  sultão reina por um “mandato” de cinco anos. No Kuwait, o emir deve ser ratificado por voto do parlamento. No Vaticano, o papa é eleito pelo Sacro Colégio dos Cardeais, que são bispos da igreja católica com direito a voto.
  • Duas mulheres (as rainhas Elizabeth II da Inglaterra e Margareth II da Dinamarca) são soberanas de quase metade das monarquias atuais (21 de 51).

Nos demais Estados-Nação, o culto dos líderes fortes voltou à moda. Atualmente, líderes como Xi Jinping, Vladimir Putin, Jack Widodo, Rodrigo Duterte e Recep Erdogan compõem a gama de homens fortes que despertam fascinação entre seus povos, mesmo agindo de forma autoritária. O candidato republicano à Casa Branca adotou o mesmo discurso patriótico dos demais, com teor nacionalista, inclinado a teorias da conspiração e promessas de revitalização doméstica, vide o slogan “Make America Great Again” (Torne a América Grandiosa Novamente, em tradução livre).

Os perfis desses homens fortes do Estado estimularam o culto às suas personalidades. Nos últimos anos, músicas louvando Xi Jinping se alastraram pela China. Na Rússia, a mídia glorifica Putin com centenas de fotos com poses de macho, em muitas delas o presidente russo exibe suas habilidades atléticas de peito nu.

A explicação está na insegurança global gerada após a crise de 2008, somada à iminente às ameaças do terrorismo, da bolha crescente dos títulos emitidos pelos países e dos atuais conflitos internacionais. Tais fatores fazem com que a figura de um líder viril tranquilize a população. Além disso, são tempos difíceis em que a barganha diplomática exige dos líderes uma postura firme.

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