Tenho medo de ir em direção onde minha alma dança onde meu espírito exulta lá onde as labaredas rugem onde o chão estremece e os raios caem. Tenho medo de ir em direção aos ventos assustadores da minha alma em euforia de riso incontido em meio a sua gritaria alegre. Tenho medo da minha alma bêbada sabe se lå de onde vem tudo isso e onde encontrou tão formidáveis vestidos e quem lhe colocou tornozeleiras com sinos e essas pulseiras multicolores. tenho muito medo da minha alma quando corre como uma criança pelos corredores da imaginação.

Gore Vidal em seu livro Criação retrata uma ficção histórica onde o protagonista  faz certa peregrinação até a antiga capital de Babilônia, no dia das festas de Marduque, que legitimavam, de certo modo, ao trono do império sumério, seguindo as tradições de ascendência real originada em antigas divindades. No caso especifico, o parentesco divino não era orientado por uma filiação antes, por um casamento… Contavam antiquíssimas lendas que a deusa Ishtar apaixonou-se por um homem e tornando-se humana desceu a terra,  casando-se com aquele que seria o primeiro rei de uma linha de sucessão, que se perdia na aurora dos tempos. Do fruto dessa paixão insana,  contrariando as ela as próprias leis divinas, tendo recebido a deusa, por tal rebeldia, dura punição, nasceriam os ritos de consagração real e as festas religiosas onde o primeiro rei (assim como os demais) seriam elevados, por fruto de um casamento sagrado, à condição de divindade.  A deusa teria virado ‘consorte/amante/esposa’, assim como fora de Gilgamés e de Assubanipal, daquele cujos Zigurates encheriam a futura cidadela de 96 km2, Babilônia, uma das sete maravilhas do mundo da antiguidade: Marduque (Marduk), homem-deus e rei mitológico dos antigos sumérios/acádianos, divindade que legitimaria o trono babilônico. Mas, a romântica história estampada nos portões da cidade, emoldurada por formas totêmicas ou contida nas representações em forma de animal da Impulsiva Ishtar escondiam a depravação da religiosidade que abraçou ao sexo sagrado como sua máxima celebração. Os sumérios (os assírios) e os acádicos, ou caldeus, farão dessa ficção teológica, dessa construção mítica, a base de sua religiosidade.

Is-tar lu-u i-ra-man-ni-ma

Istar apaixonou-se por mim

É este amor que a deusa nutre pelo seu favorito que justificará a sua eleição e a sua entronização, legitimando assim a sua realeza. Na Epopéia de Gilgames, algumas passagens alusivas à condição física de Ishtar pressupõem a mesma construção retórica e ideológica. A deusa diz estar esgotada, os seus traços já não são recuperados pelo sono reparador, o rosto encontra-se abatido, sintomas do sacrifício que impõe a si própria em nome do seu amor por Gilgames

Nos oráculos neo-assírios, onde Ishtar desempenha um papel fundamental na comunicação profética e assume na plenitude o seu lugar na religião assíria, encontramos igualmente a expressão desta dimensão mais física e
feminina:

“Vagueio pela estepe, pedindo pela tua vida. Atravesso continuamente rios e mares, cruzo incessantemente montanhas e montanhas. Atravesso constantemente todos os rios. Secas e chuvas consomem-me  insistentemente e afetam a minha bela aparência. Estou exausta, o meu corpo está extenuado por tua causa”

Expressão máxima deste estereótipo e da relação amorosa entre Ishtar e o seu favorito é o rito do casamento sagrado. Num hino que Assurbanípal dedica a Istar de Nínive, o poeta alude à chegada da deusa e ao júbilo que provoca entre os seus pares e, em seguida, descreve os momentos que antecedem o rito: O rei está vestido com roupas asseadas e colocou um fato magnífico. Assurbanípal chega, entre oferendas sagradas e puras. Vinho doce, digno de divindade, cerveja demasiado forte para reis! Para se dirigir à sua Casa Akitu, ela pôs os arreios no seu carro, demasiado imponente para reis. Ele concluiu as oferendas, ela dirigiu-se para o templo do seu desejo.

O rito do casamento sagrado era celebrado anualmente, no início de cada ano, comemorando e renovando a realeza. A união entre a deusa e o seu favorito sustentava a legitimação do poder real.

Amor a Gomer 1

O livro de Oséias trata do tremendo amor divino que convoca ardentemente o povo escolhido retornar a sua adoração. Como um casamento destruído pelo adultério continuo, a relação entre Israel e aquele que lhe amou e libertou da terra da escravidão estava indo de mal a pior. Todas as leis divinas, todos os mandamentos eram desprezados e em especial o crescente envolvimento com práticas de idolatria das divindades sexuais da Mesopotâmia, com a idolatria de deuses gerados a partir do culto dos mortos, os espíritos familiares divinizados, e a pratica de oferendas, cânticos, sacrifícios e adoração das deusas da fertilidade, a internacional Isis dos egípcios, Astarte para os canaanitas, Inanna para as nações africanas, Ishtar para os mesopotâmicos. A senhora do céu, cuja irmã era a senhora da morte, a dona do Sheol, era presente e metamorfoseada em tantas formas que um dia um escritor romano a chamara de a ‘deusa dos mil nomes’. Sua influencia se estendeu até a Europa e mesmo Roma a tinha como deusa instituída em diversas regiões, seja na região da Itália ou na península ibérica, em especial na região que um dia seria chamada de Portugal onde se encontram numerosos vestígios dessa adoração. Não contente em ser adorada pelo oriente, a deusa foi ‘evangelizada’’ e conduzida até as regiões da Mongólia, Coreia, China e Japão, onde foi suavizada pelo xintoísmo tornando-se a deusa da agricultura.

Trocaram o amor divino pelos encantos da deusa do amor. O profeta Oséias então será comissionado com a mais impressionante e afetuosa missão profética de todos os tempos, sendo usado por Deus para transcender todos os padrões vigentes de amor humano, com atos proféticos inacreditavelmente românticos, com uma missão de ‘quase’ impossível humanidade e cujo desfecho seria, aos olhos de todos, ‘uma tragédia familiar anunciada’  desde o início de sua comissão profética. Oséias viveu no território do reino de Israel de dez tribos (também chamado de Efraim, por causa de sua tribo dominante). Ele profetizou durante os reinados dos últimos sete governantes de Israel e dos reis Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, de Judá. (Oséias 1:1). Oséias profetizou por pelo menos 59 anos. Embora o livro que leva seu nome tenha sido concluído não muito depois de 745 a.C. O que o coloca seu ministério tendo inicio cerca de 800 anos antes de Cristo.

Cada pedaço do livro de Oseías vai nos revelar uma história de amor dentro de outra história de amor, em forma de cântico profético. As pistas estão espalhadas aqui e ali, ajudando a formar um quadro belíssimo.

A prostituição sagrada era um ato de luxúria disfarçado e falsamente dignificado por doutrinas mágicas, míticas e religiosas que transformaram os templos antigos em fontes de comércio sexual lícito, legitimado pelo ‘sagrado’ das práticas dos cultos que reivindicavam para si a capacidade da união sexual com as românticas e sensuais deusas da antiguidade, onde as sacerdotisas, dizendo-se ‘tomadas/possuídas’, em transe, davam a entender, ao vasto e sempre crescente número de fiéis, a capacidade de homens se relacionarem com os deuses, numa dimensão em que ‘relacionamento’ e ‘íntimo’ se confundiam com o desejo sexual e cujos ritos que eram, no mínimo, muito vergonhosos.

As moças e até meninos eram influenciados pelo sacerdócio mágico e introduzidos num mundo de devassidão ainda muito jovens. Os santuários viviam das ‘oferendas vivas’ de uma multidão de adolescentes.  Em contrapartida enriqueciam ‘ministérios’, templos e sacerdócios. Até mesmo cidades inteiras eram sustentadas pelas práticas das antigas religiões de Canaã. Uma visão sobre as pinturas da’ senhora do céu’ a antiga deusa sexual dos egípcios, explicitamente pornografia em forma de iconografia egípcia.  Do mesmo tipo de luxuria encontrada nas pinturas em Pompéia, em vasos gregos, em milhares de representações que atingem os cantos mais remotos do planeta terra, incluindo todo o continente africano, estados da Índia (Khajuhaho), Oceania, estepes do Cáucaso, alturas da Andes, o interior da China, os vales do reino de Joseon, antiga capital coreana, ou as montanhas do Tibet.

O território que corresponde ao atual Iraque foi conhecido na Antiguidade com o nome de Mesopotâmia, termo grego que significa “entre rios”. Essa região foi palco dos primeiros processos de sedentarização de grupos humanos, cujas vivências históricas desencadeiam em grupos urbanos complexos desde meados do terceiro milênio antes da Era Comum (a.E.C.). Centro cultural do Oriente Próximo, a Mesopotâmia pode ser dividida em quatro regiões: Suméria (III milênio) e Babilônia (II e I milênio) ao sul, Acádia (III milênio) e Assíria (II e I milênio) ao norte, Elam a leste, e Síria a oeste. Daí decorre um dos epítetos muito usados pelos reis mesopotâmicos, o de Senhor das quatro regiões.

Segundo o documento de Iddin-Dagan, Inanna, divindades sumeriana, repaginada em Ishitar,  possuía uma estátua de culto que era ornada com joias e manto real. Era invocada pelos guerreiros como uma espécie de patrona dos exércitos, pois certo texto diz que “sem dúvida alguma os jovens valorosos (guerreiros) a invocavam”, pois Inanna era aquela que causava pavor durante a luta, aquela que fazia tremer o céu. Portanto todos a ela prestavam homenagem. Os homens, os deuses, animais, toda a natureza curvava-se diante da “pura Inanna”.

As oferendas a Inanna eram as mais variadas. A ela se ofereciam incensos acesos nos terraços, em “lugares acolhedores” ou nos corredores das muralhas, colocados no alto para encher o céu com perfumes; ou se imolavam as melhores ovelhas, e se purificavam os altares para as oferendas onde se encontrava todo tipo de libações. Essa manifestação de agradecimento remonta novamente aos primórdios do culto, pois se oferecia em agradecimento pela abundância e em desejo de prosperidade. Ofertavam-se manteiga, frutas, cerveja de trigo, mel, vinho e flor de farinha, produtos da terra, dádivas da própria “deusa da vida”. A flor de farinha indica que os campos estavam em flor, que a colheita seria favorável, assim como os outros produtos indicavam prosperidade, fertilidade e fecundidade, tão caras ao homem mesopotâmico em sua vida material e uma demonstração de prosperidade que refletia na vida espiritual. Durante o festival havia licenciosidade sexual, orgias sagradas e profanas. Sendo a deusa do sexo, Inanna mostrava o caminho, ensinava os segredos do “abraço sagrado”.

Ela purificava-se, banhava-se com sabão, untava o corpo com óleo perfumado e esperava ansiosa no leito. O rei chegava também ansioso por compartilhar o leito de Inanna e se unia a ela no “abraço sagrado”. Contudo, a união sexual promovida por Inanna não era apenas lânguida e voluptuosa, afinal ela era a “vaca selvagem”, a “doadora da vida”. O ato sexual foi também desejo ardente e insaciável, pois o arado abria caminho na terra virgem. Ela era a deusa que 120 homens não conseguiam saciar. Inanna governou o sexo em três modalidades principais: o sexo como reprodução (tanto como sobrevivência quanto como energia criadora); o sexo como prazer (sensual ou selvagem); e ainda o sexo como sagrado (como meio de conhecimento e encontro com o divino). Governou os homens e suas instituições sempre marcando seu território a partir de seu leito. Governou templos, grandiosos como o Eanna em Uruk, e estendeu seu culto a lugares mais distantes, como o Abgal em Umma, o Duranki em Nippur e o Edilmuna em Ur. Neles construiu seu lar, com servos que a alimentavam, sacerdotes que entoavam cantos, eunucos que prestavam serviços, sacerdotisas que oficiavam cerimônias diversas, com seus faustosos
guarda-roupas, joias e tecidos dos mais diversos lugares, e fiéis que lhe
traziam libações. (Simone Aparecida Dupla – Revista de história- O hierogamos de Inanna e Dumuzi: sexualidade, religião e política na Mesopotâmia)

Israel deixou-se envolver, a medida que crescia como reino, cada vez mais no  mundo religioso da antiguidade. Nos seus costumes, em suas práticas libidinosas e em sua luxúria. Um mundo de devassidão que escondia uma terrível e opressiva realidade. A verdadeira face dessa festa podre era a prostituição e a escravidão sexual. O Espírito de Deus por intermédio de seus profetas negou veementemente sua aceitação, sua conivência, sua inspiração ou que tal uso da sexualidade humana pudesse trazer qualquer proveito. Porque a motivação era falsa, e o propósito do casamento ridicularizado a cada culto, as moças eram usadas como prostitutas, humilhadas, carregavam o nome de ‘sagradas’ e no seu interior a destruição de seus sonhos, seus ideais e sua história pessoal. Há uma maldade dissimulada no tratamento benevolente ou na parcimônia com que muitos historiadores, estudiosos e simpatizantes com o ocultismo e com o mágico tratam a devassidão e a exploração sexual mantida em nome da religião.  O Espírito de Deus não tratará de nenhum modo tais práticas com olhar ‘amoroso’, ele as condenará veementemente pela boca dos seus profetas, ele as abominará de tal modo que até o salário de um prostituto ou de uma prostituta cultual seria considerado como uma abominação se trazido como oferta diante dele. Porque o preço de tal salário era a vida, a agonia, a doença, o destrato, o abandono, a angustia e a perda da inocência nas mãos de todo tipo de pessoas que as usaria como objetos para satisfação dos mais vis desejos. A estimada ‘honra’ que ‘lhes era concedida’ por serem sacerdotes e sacerdotisas, papisas ou oficiais dos templos antigos, era dolosa mentira, aos olhos de Deus.

Os pais israelitas por centenas de anos concordaram com a prostituição de suas filhas e meninos nas festividades da Mesopotâmia e de Canaã. Incentivavam as esposas e noras a participarem dos eventos e até a se tornarem parte da prostituição profana e da sagrada. Prostíbulos de diversas naturezas se multiplicaram com a permissão sacerdotal, real e legal.  O Espírito de Deus vê a destruição que os assírios trarão sobre dez das doze tribos de Israel, em virtude da terrível corrupção e declínio espiritual da nação. A cada capítulo do livro de Oséias vai se revelando um cotidiano de suborno, homicídios premeditados, mentira, usura e desonestidade generalizada, a adoração de ídolos familiares em cada casa, e a participação efetiva das famílias de milhares em práticas de superstição e prostituição. O adultério se torna algo tão comum quanto a violência.  Em determinado instante do livro saberemos que um grupo de sacerdotes se tornou em um bando de salteadores e assassinos, que armam emboscadas no caminho de uma grande cidade.  O excesso de vinho das festas adoece e enlouquece os nobres, desvirtua a muitos.  A prostituta da antiguidade começava cedo. Ainda adolescente era conduzida aos prostíbulos, era compensada se tivesse grande beleza alcançando status e então seria de ‘uso exclusivo’ por nobres, comerciantes ou pessoas de classes abastadas, equivalentes as ‘meninas de programa’ ou prostitutas de luxo de nossa sociedade moderna.  Também nos templos de Inanna, Astarte ou Ishtar teriam uma rápida ascensão a classe das ‘sacerdotisas’, porque trariam grande lucro para o sacerdócio local, tendo em vista que as ‘oferendas’ eram das mais variadas, que incluíam os melhores frutos da terra, vinho, lãs, roupas, produtos variados, jóias e valores de vulto. As deusas eram esplendidamente decoradas, adornadas com jóias verdadeiras, eram, figurativamente falando, ‘ricas’ e ostentavam essa riqueza ganha pelas mãos ou atos das moças dos templos. A prostituta da antiguidade era perita na arte da diversão do publico. Elas deveriam entreter os convidados, de diversos modos por isso eram capacitadas com musica, com dança, com o canto. A prostituta profana, que não pertencia aos templos possuía vestes e marcas especiais, distinguia-se pelo seu andar, pelo modo com que balançava os quadris e fazia soar os seus braceletes e sinetes amarrados em suas saias, seus passos eram musicais ao extremo. As do templo ainda possuíam o conhecimento de liturgias, cânticos religiosos de louvor e adoração, cujas letras eram poesias inspiradas. Canções de amor que contavam histórias de sedução. Os ambientes eram preparados com óleos e perfumes aromáticos, as moças perfumadas e enfeitadas para representar as deusas a quem serviam.

Os cânticos sagrados eram evocativos e cheios de sensualidade:

Inana trouxe as medidas sagradas

Ela trouxe o colocar da roupa no chão

Ela trouxe encanto

Ela trouxe a arte de ser mulher

Ela trouxe a perfeita execução dos ritos

Ela trouxe os tambores tigli e lili

Ela trouxe os tamborins sagrados

Elas deveriam demonstrar alegria, riso, sensualidade e beleza. Isaías fala-nos que elas tinham costume de cantar e tocar harpa ao redor das cidades, numa visão referente e Tiro.  Ela cantavam, dançavam e tocavam esplendidamente instrumentos. Vivenciavam o equivalente a escolas preparatórias que as ensinavam a arte de entreter e seduzir, seja pela instrução de meretrizes mais experientes, eunucos ou sacerdotisas.

Quando Oséias é chamado para profetizar a Israel O Espírito proporá uma das coisas mais extraordinárias que já realizou na terra.

Assim que Yahweh começou a falar por intermédio de Oseias, ele lhe ordenou: “Vai e toma uma mulher que se entrega à prostituição; os filhos que vos nascerem serão os filhos da infidelidade, porquanto toda a nação é culpada do mais vergonhoso adultério: afastar-se de Yahweh e apegar-se à idolatria!”

3 Então ele obedeceu, foi e se casou com Gô’-mer bat Divláim, Gômer filha de Diblaim; ela engravidou e deu à luz a um filho de Oseias.

– Case-se com uma prostituta.

E pelo contexto do livro, não é uma prostituta qualquer. Gomer é uma prostituta sagrada. Na verdade GOMER TRANSITAVA NOS DOIS MUNDOS DA PROSTITUIÇÃO DA ANTIGUIDADE. A uma delas, por convenção denominamos de ‘profana’ ou secular. Uma mulher virgem era o idealizado como esposa por todos os israelitas. Uma vez prostituída a mulher da antiguidade sabia que jamais seria tida como ‘digna’ de tornar-se esposa legitima, fosse de natural ou de um estrangeiro.

As filhas que eram transformadas em prostitutas sabiam que já não poderiam se casar. Uma prostituta ‘comum’ era normalmente de uma família pobre, ela muitas vezes fora VENDIDA pelo seus pais para ocupar aquela posição, como temos paralelo na cultura de estados de grande pobreza indianos.  A prostituta era sempre considerada como uma ‘mulher pública’. Ela tinha amantes, e normalmente não manteria os laços familiares. Era considerado indigno a relação com a família de onde sairia, seriam cortados os laços familiares pela vergonha dos seus parentes que não queriam ser vistos com ela, sendo rechaçada do convívio com a família, num caminho sem retorno.

O estado de declínio espiritual vigente conduziu as famílias de Israel ao não rompimento completo dos laços familiares, que traduzia um paradoxo cultural. O nome do pai de Gomer, Diblain é citado por Oséias, o que seria incomum em todas as outras épocas da história israelita. Porque prostitutas não eram listadas em genealogias, não participavam da herança paterna, elas se tornavam pessoas ‘sem-família’. Porém, são os pais que estão ‘dando’ suas meninas aos templos, e a sociedade de sua época está tendo como ‘comum’ o que milhares estão fazendo. Por detrás da nomeação do pai de Gomer há o espectro da responsabilidade que será trazida a tona nos capítulos posteriores. Ele era culpado daquilo que sua filha veio a se tornar.

Oséias vai até um prostíbulo de luxo ou até o templo de Ishtar, porque as praticas se confundiam nessa época tamanha a licenciosidade. A maioria, se não todas as prostitutas, eram religiosas praticando ritos de consagração e veneração a Baal e a baalins, a deuses familiares, as árvores sagradas e as deusas da prosperidade. Porque tais divindades não RECRIMINARIAM sua conduta ou sua devassidão. Pelo contrário.  Todos permitiam, os deuses da antiguidade só se importavam com as próprias oferendas, e seus próprios ritos. Servir a Baal só exigia pagar-lhe tributos, oferecer dádivas, independente do caminho pessoal trilhado.

Creio que o Espírito de Deus que levantou a Oséias como profeta o conduziu até um santuário da deusa do amor, para uma prostituta cultual, que vivia em contínuos rituais de sexo sagrado, que participava da adoração plena em festivais ‘sagrados’ regados a vinho e sexo, para desta história traduzir um amor de outro mundo.   O profeta segundo a palavra divina escolherá a Gomer que representa em tudo que faz, em tudo o que veste, em cada canção de adoração, a própria deusa Ishtar. E Oséias a convidará a moça que a cada ano participava da festa de ‘casamento dos deuses’ e que o representava com seu próprio corpo as ‘núpcias’ entre a deusa e um ser humano, para participar de algo que lhe seria negado para toda sua vida:

Seu próprio casamento.

O profeta fazia-lhe um convite impossível e inacreditável aos olhos da comunidade. Casar-se com uma prostituta.  Preciso falar sobre a suposta beleza de Gomer. Quanto mais bela era a prostituta da antiguidade, mas ‘honrada’ com presentes ela seria, mais ‘poder’ de dispor o corpo e escolher com quem gostaria de passar a noite ou ter relações, ela teria. Essa é a visão que as imagens (iconografia) de vasos gregos retratando Simphosiuns da antiguidade nos transmite. Até hoje tal preceito é uma realidade cultural, o ‘domínio’ ou o ‘valor’ da prostituição está atrelada a juventude e aos padrões de beleza física. Está presente na ‘reclamação’ de Efraim a ‘beleza’ escondida de Gomer, pelos bens que ela recebia. Incluindo Figueiras e até mesmo uma VINHA.

Pois a mãe deles se prostituiu; aquela que os concebeu agiu com torpeza e vergonha. Porque alegou: ‘Irei atrás dos meus amantes, que me dão lekhem, alimento: pão, água; e também lã, linho, azeite e bebidas’.

Devastarei as suas videiras e figueiras, que, segundo alegação dela, foi pagamento recebido de seus amantes; eis que farei de todas elas um só grande matagal, e os animais silvestres as devorarão com avidez.

Mas a beleza exterior de Gomer escondia dentro dela um processo de devassidão inquebrantável.

A proposta de casamento é irrecusável, ela traria honra, lhe daria um nome, lhe concederia o benefício da herança e filhos que poderiam ser legitimados. Gomer, mesmo sem qualquer amor por Oséias aceita se casar com ele.  Até este instante cremos que Oseías o faz contristado, lutando consigo mesmo, enojado, só por obrigação em cumprimento da ordem divina.  Ledo engano. Na medida que o Espírito Santo for ‘tecendo’ sua profecia tremendamente humana, nos dará pistas a respeito da escolha proposital de Oséias e o porque ele foi capaz de suportar as coisas que ainda acontecerão em seu casamento no decorrer do livro.

1 Quando Israel era menino, eu o amei muito, e do Egito chamei o meu filho.

2 Todavia, quanto mais Eu chamava meu povo, como quem chama seu filho, mais essa gente se afastava da minha pessoa. Eles ofereceram sacrifícios aos baalins e queimaram incenso diante de imagens de ídolos esculpidos.

3 Contudo, Eu ensinei Efraim a andar; Eu o carreguei no colo; mas eles não entendiam que era a minha pessoa quem os curava e zelava por eles.

4 Eu os conduzi com laços de bondade humana e grande amor; fui Eu quem lhes tirou o jugo pesado do pescoço, e me inclinei para alimentá-los.

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