Pouco antes da morte, a 30 de Novembro de 1935, no Hospital São Luís em Lisboa, vítima de cirrose provocada por ingestão de bebida alcoólica, Fernando Pessoa anotou num pedaço de papel suas últimas palavras: I Know not what tomorrow will bring. O sentido e a circunstância dessa frase remetem a uma de suas obsessões cognitivas, thémata: a existência, pendor especulativo que o levou a se interessar por mediunidade, espiritismo, astrologia, maçonaria, teosofia – esoterismo em geral.

A religiosidade, o ocultismo e a compreensão da espiritualidade eram por ele cultivadas e estavam, no fim das contas, na ante-sala das suas curiosidades. “Não procure, nem creias: tudo é oculto” afirmou Fernando Pessoa, depois é (contra)dito por Alberto Caeiro que afirmou “Porque o único sentido oculto das coisas / é elas não terem sentido oculto nenhum”. Sua mediunidade o levou às práticas ocultistas, à defesa da Rosa-Cruz e da maçonaria, à astrologia, à numerologia. Um intelectualista do tipo que ele era fez entrar na construção mental o que podia caber: o inteligível e o ininteligível, o racional e o irracional, o visível e o invisível, o claro e o misterioso, constituindo um sistema mágico nas suas conclusões embora desprovido de comprovação objetiva. Tudo se passou como se a subliteratura mística de onde extraía alento, ao atravessar seu cérebro privilegiado, saísse do outro lado filtrada e rarefeita do ponto de vista religioso.

Percebemos na produção poética de Fernando Pessoa um tipo de religiosidade não comum em sua época – entretanto bastante usual nos dias atuais – ao invés de abraçar uma única religião opta-se pela escolha de elementos de várias religiões constituindo assim, um tipo de personalismo religioso. Uma espécie de “religião à la carte”.

Para concluir, vemos que a obra de Fernando Pessoa foi desatrelada da biografia na maior parte da crítica feita à complexa rede de seus heterônimos, cujas personalidades, muito distintas, impossibilitaram uma associação mais estreita entre vida e obra.