Os países em que as pessoas dão mais gorjetas para garçons, taxistas, cabeleireiros, etc., tendem a apresentar as mais altas taxas de corrupção. Sim, o Brasil é um dos líderes na lista, assim como Venezuela, Argentina, México, Colômbia, Índia, Egito e Turquia. No outro extremo estão países como Nova Zelândia, Islândia, Dinamarca e Suécia.

A constatação é de um estudo publicado na revista Social Psychological and Personality Science por Magnus Thor Torfason e Francis J. Flynn, da Harvard University, em conjunto com Daniella Kupor, da Standford University. Os pesquisadores procuraram mostrar como gorjeta e propina não são ações tão distintas, como pode parecer a muitos à primeira vista.

Numa enquete que eles realizaram com norte-americanos, apenas 5,9% disseram acreditar que os dois fatores, gorjeta e propina, são positivamente relacionados, enquanto 11,8% afirmaram que a relação provavelmente é negativa e 78,4% demonstraram crer que uma coisa não tem nada a ver com a outra.

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Gratificar é considerado um ato altruísta, enquanto subornar é enquadrado como corrupção. Por esse princípio, como responderam as pessoas entrevistadas na pesquisa, as duas atitudes não teriam qualquer conexão, ou estariam negativamente relacionadas. Mas Torfason, Flynn e Kupor defendem que ambos os comportamentos têm o mesmo fim: conseguir alguma vantagem.

Apesar de mostrar uma correlação positiva entre as duas variáveis, o levantamento realizado em diferentes países trouxe uma questão adicional a investigar. Entre os países em que as pessoas são generosas nas caixinhas, apareceram não apenas aqueles com alto índice de corrupção. Destacou-se um outro grupo, em que propinas são pouco comuns – caso dos Estados Unidos, Canadá, Portugal, Espanha e Áustria.

Torfason, Flynn e Kupor decidiram então estudar dois países em que o padrão é dar gorjetas, mas um, Índia, tem alto índice de corrupção, enquanto outro, Canadá, tem baixo. Conforme esperado, os indianos consideraram atos corruptos mais aceitáveis do que os canadenses – casos como dar propina a um policial para evitar uma multa ou oferecer dinheiro a um funcionário da Receita Federal para que a empresa não seja auditada.

E, apesar de em ambos os países as pessoas terem costume de gratificar quem presta um serviço, o objetivo da gorjeta é distinto: para os participantes do Canadá, trata-se de uma maneira de recompensar um profissional por um serviço excepcional já realizado, enquanto para os da Índia, a expectativa é obter um retorno no futuro.

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Os autores sugerem que talvez estimular uma visão retrospectiva faça com que as pessoas sejam menos condescendentes com propinas e presentes. Assim como encorajá-las a dar gorjetas como reconhecimento por um serviço prestado no passado pode diminuir a motivação a corromper funcionários do governo. Será? Seria ótimo se fosse verdade.

 

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