A procrastinação é um problema comportamental sério e bem conhecido que tem tanto implicações práticas como psicológicas. Contribuintes, por exemplo, frequentemente adiam o envio de suas declarações anuais de imposto de renda até o último minuto, arriscando cometer erros matemáticos em sua pressa para apresentar os formulários preenchidos.

Legisladores são notórios por “enrolarem” e empregarem táticas de obstrução antes de promulgarem leis precipitadas, mal discutidas e desinformadas ou imprudentes na última hora. E, estudantes também tendem a procrastinar e passam noites em claro para apresentar seus trabalhos de conclusão de curso, antes do iminente prazo final, e por isso deixam de revisar e aprimorar, ou editar, seus trabalhos adequadamente.

PROCRASTINACIONPor essas razões, somos aconselhados a não procrastinar:

Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje. Quem hesita está perdido. A procrastinação é um ladrão do tempo, são apenas alguns exemplos de ditados bem conhecidos

Ironicamente, o contrário de procrastinação também pode ser um problema sério. Essa tendência, chamada “precrastinação” (do neologismo inglês “pre-crastination”), é a inclinação para realizar obrigações rápida e simplesmente para se ver livre delas antes cedo do que tarde.

Há pessoas que, por exemplo, respondem aos seus e-mails imediatamente em vez de contemplarem cuidadosamente suas respostas; outras, pagam as contas assim que elas chegam, deixando de ganhar juros sobre seu dinheiro aplicado.

E há pessoas que pegam itens assim que entram no supermercado, os carregam até a parte de trás do estabelecimento, pegam mais produtos por ali, e depois voltam para a parte da frente para pagar e sair; ou seja, elas carregam as compras mais longe que o necessário.

Existem diversos adágios que também alertam para os perigos da precrastinação; por exemplo, Meça duas vezes antes de cortar (provérbio de carpintaria); Case às pressas, arrependa-se com calma (ou seja, quem se casa precipitadamente pode passar muito tempo se arrependendo); ou ainda Olhe antes de pular (você deve saber em que se mete antes de se comprometer).

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A primeira vez que encontramos evidências marcantes de precrastinação foi em um estudo laboratorial que explorava a economia de esforço. No experimento, estudantes universitários foram solicitados a carregar um de dois baldes: um no lado esquerdo de uma passarela e outro no lado direito da mesma passarela.

Os alunos foram instruídos a carregar o balde que parecesse ser mais fácil de levar até o fim da passarela. Esperávamos que os estudantes escolhessem o balde que estava mais perto da extremidade, porque ele teria de ser transportado por uma distância mais curta. Para nossa surpresa, eles preferiram o recipiente mais próximo do ponto de partida; ou seja, eles o carregaram por uma distância maior.

Quando perguntamos por que fizeram isso, a maioria dos voluntários respondeu algo como: “Eu queria terminar a tarefa o mais rápido possível”, embora essa escolha de fato não completasse a incumbência mais rápida ou antecipadamente.

Nove experimentos, envolvendo mais de 250 alunos, não revelaram o que pode ter sido tão persuasivo para eles apanharem o balde mais próximo. Embora algum benefício oculto ainda possa estar aguardando para ser descoberto, uma simples hipótese é que realizar alguma coisa, ou chegar mais perto de concluí-la, é inerentemente gratificante.

Não importa o quanto a realização/execução seja trivial, até uma coisa tão inconsequente como pegar um balde pode servir como recompensa em si.

A pergunta é: a precrastinação exibida por estudantes universitários, pagadores de contas, escrevedores de e-mails, e consumidores/compradores é um sintoma de nossas vidas estressadas e apressadas?

O outro estudo de nossos laboratórios sugere que não é. Esse segundo experimento foi feito com pombos.

As aves podiam ser recompensadas com alimentos ao bicarem três vezes uma tela sensível ao toque: primeiro, tocando em um quadrado no centro da tela; depois, acertando o mesmo quadrado ou outro que aparecia randomicamente à sua esquerda ou direita; e, por último, bicando um quadrado lateral depois que uma estrela aparecia dentro dele.

É significativo que o alimento era dado depois da bicada final, independentemente de se o segundo toque atingiu o quadrado central ou lateral, onde apareceria a estrela.

Os pombos dirigiram sua segunda bicada ao quadrado lateral, aproximando-se assim da posição-alvo o mais rápido que podiam, embora não houvesse nenhuma recompensa óbvia ou extra por fazerem isso.

Portanto, os pombos precrastinaram.

Ao executar uma tarefa sem demora, você não precisa se lembrar de realizá-la mais tarde; pode ser cansativo manter em mente coisas que ainda precisam ser feitas. Exigir que pessoas adiem a execução de uma tarefa frequentemente piora seu desempenho. No entanto, duvidamos que essa seja toda a história.

Levantar um balde não cansa excessivamente a memória de trabalho, e não está evidente por que dirigir a segunda bicada para o local do futuro objetivo reduziria a carga na memória de trabalho dos pombos. Uma explicação mais simples é que a conclusão da tarefa é gratificante em si e por si.

Trabalhos que podem ser concluídos rapidamente nos atraem mais que incumbências que precisam ser adiadas. Todas as potenciais tarefas, ou seus circuitos neurais subjacentes, concorrem por uma conclusão. Circuitos neurais para trabalhos que são concluídos talvez perdurem por mais tempo que circuitos para tarefas não realizadas.

Outra vantagem de concluir tarefas o quanto antes é nos fornecer o máximo de informações possíveis sobre os custos e benefícios de comportamentos ligados a elas. O aprendizado por tentativa e erro é a maneira mais confiável para descobrirmos o que funciona e não funciona na vida cotidiana. Essa aprendizagem pode até gerar inovações comportamentais práticas.

Em vista desses benefícios, pode ser melhor adquirir experiência com vários ensaios que com apenas alguns. A precrastinação claramente acresce ao desafio de lidar com a procrastinação.

Procrastinadores não só devem dar início mais cedo a tarefas que prefeririam adiar, mas também precisam inibir o impulso, ou o anseio de concluir trabalhos pequenos e triviais que trazem recompensas imediatas simplesmente por terem sido concluídos.

A descoberta da precrastinação pode sugerir um jeito de combater os males da procrastinação: por exemplo, dividir tarefas maiores em algumas menores.

Quando concluídos, esses trabalhos menores promoverão uma sensação de realização, nos aproximarão mais do objetivo final e, por meio do aprendizado de tentativa e erro, talvez reforcem a descoberta de modos ainda mais adaptáveis e inovadores de comportamento.

HAYS Brasil Veículo: Folha de S. Paulo - SP Data: 24/08/2014 Tópico: HAYS Página: 5-4-6 Editoria: NEGÓCIOS E CARREIRAS ...

HAYS Brasil Veículo: Folha de S. Paulo - SP Data: 24/08/2014 Tópico: HAYS Página: 5-4-6 Editoria: NEGÓCIOS E CARREIRAS ...

Sobre os autores: David A. Rosenbaum, professor de psicologia na Universidade Estadual da Pensilvânia, é autor de “It’s a jungle in there: How competition and cooperation in the brain shape the mind” (Oxford University Press, 2014) e coautor de “MATLAB for behavioral scientists” (Routledge, 2015). Edward A. Wasserman, professor de psicologia na Universidade de Iowa, é coautor das obras “How animals see the world” e “Oxford handbook of comparative cognition” (ambas publicadas pela Oxford University Press, 2012).

Publicado em Scientific American em 30 de junho de 2015.