Conceber um bebê do sexo masculino é mais provável durante os períodos de guerra e conceber uma bebê do sexo feminino é mais provável durante crises que causam estresse nos pais. Um novo livro publicado no Reino Unido e denominado “Sex by Numbers” revela alguns fenômenos estatísticos e sociológicos que marcaram a gravidez e o parto ao longo da história da humanidade e a influência dos conflitos e do ambiente social no sexo da descendência é apenas um deles. O autor da obra, David Spiegelhalter, é catedrático de Estatística na Universidade de Cambridge e oferece algumas explicações para os resultados obtidos.

Nos anos de guerra, muitos casais apenas conseguem ter relações íntimas durante os períodos de licença militar dos homens, o que significa que “fazem sexo mais vezes e sem preocupações de saber se a mulher está ou não fértil. Acontece quando é possível e depois de longos períodos afastados”. Cientificamente, está provado que conceber rapazes é mais provável se o encontro do óvulo e do espermatozoide se der nos primeiros dias do período fértil. Ou seja, há mais concepções precoces e “mais bebês do sexo masculino em resultado disso mesmo”. Picos de registros de rapazes durante a I e a II guerras mundiais parecem dar razões estatísticas a David Spiegelhalter.

Quanto à concepção de meninas, o mesmo especialista relaciona-as com momentos de stresse dos casais. Pegando em três exemplos – um terremoto ocorrido no Japão em 1995, os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e o último pico de desemprego nos Estados Unidos – David Spiegelhalter mostra que nasceram mais bebês do sexo feminino nos meses seguintes a esses acontecimentos.

A psicóloga evolutiva Valerie Grant, da Universidade de Auckland, Nova Zelândia, acredita que temos a capacidade de determinar o sexo de nossos filhos. Para ela, são as mães que fazem a escolha. Valerie estuda como os níveis de testosterona – o hormônio masculino presente também nas mulheres – podem ter um papel decisivo na determinação do sexo dos filhos. Ela pesquisou a presença de testosterona em 178 mulheres grávidas. “Acredito que estamos aptos a demonstrar que a ação do hormônio no folículo ovariano indica a formação de óvulos predispostos a receber o espermatozoide X ou Y”, afirma.

Exemplo desse controle pode ser percebido na proporção de nascimento de meninos e meninas, após as guerras mundiais. Os meninos superaram médias históricas, em mais de 20%. Para Valerie, o estresse a que estiveram expostas as mulheres durante a guerra (o fato de terem assumido funções exercidas até então pelos homens) fez com que elas estivessem prontas para gerar filhos machos. Atualmente, nascem 106 meninos para cada 100 meninas, no mundo.

Mais uma vez, o momento do ciclo em que se dá a relação sexual é determinante: “os casais stressados fazem menos sexo e com intervalos maiores, o que leva os dias de intimidade a ‘caírem’ no final do período fértil, quando as hipóteses estatísticas de conceberem mulheres são maiores”. Por outro lado, o mesmo especialista chegou à conclusão de que os abortos precoces, que também podem ter na origem fenômenos de ansiedade, atingem mais gestações de bebés rapazes.

 O aborto seletivo de meninas, um fenômeno normalmente associado à Ásia, também afeta certos países da Europa Oriental e do Cáucaso, onde o desequilíbrio de nascimentos supera às vezes o da Índia, indica um relatório do Instituto Francês de Estudos Demográficos (INED). Segundo este estudo, a proporção de sexo masculino (“sex ratio”) nos nascimentos se situa entre 110 e 117 meninos para cada 100 meninas no sul do Cáucaso (Azerbaijão, Armênia, Geórgia) e no oeste dos Balcãs, em particular na Albânia.

Considera-se que este número é desproporcional se superar 105 meninos para cada 100 meninas. “Em três países caucasianos, a proporção aumentou nos anos 1990 e alcança níveis superiores às estimativas atuais para toda a Índia”, país em que a prática do aborto seletivo continua gerando um sério problema demográfico, afirma o INED.

Segundo o relatório, o desequilíbrio mais grave é registrado no Azerbaijão, com uma proporção de 117, o que converte este país no segundo do mundo, depois da China, em diferença de sexos no nascimento. No oeste dos Balcãs, incluindo Albânia, Kosovo e Montenegro, os níveis de desequilíbrio observados são menores, cerca de 110-111 nascimentos masculinos para cada 100 femininos. Mas, segundo o INED, “sua regularidade no decorrer dos anos atesta a realidade do desequilíbrio”.

O relatório, intitulado Disappearing Daughters (“Filhas que desaparecem”, em tradução livre), adverte que a Índia terá um futuro “sombrio” se não tomar medidas para pôr fim à preferência cultural por crianças do sexo masculino.

Uma estimativa da revista médica Lancet sugere que cerca de 10 milhões de fetos do sexo feminino foram abortados na Índia de maneira seletiva ao longo dos últimos 20 anos. As estatísticas desafiam a lei que, desde 1994, proíbe o aborto seletivo no país.

A equipe de pesquisadores visitou mais de 6 mil domicílios em cinco Estados do noroeste indiano e comparou as estatísticas com o censo nacional. Além disso, em quatro das cinco províncias a proporção de meninas em relação a meninos vem diminuindo desde o censo de 2001. O estudo revelou que a taxa de meninas para meninos cai mais fortemente nas áreas urbanas relativamente prósperas. Em entrevista à BBC, o professor Rubindra Kaur, do Instituto Indiano de Tecnologia, sugeriu que a tendência é reforçada pela disseminação da ultrassonografia. “O ultrassom permite escolher o sexo antes de o bebê nascer, e essa é uma das principais razões para que tenha havido um declínio tão grande na população feminina.”

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