De acordo com o historiador norte-americano Roger Ekrich, da Universidade Virginia Tech, publicou um estudo depois de 16 anos de pesquisa que revelou várias provas históricas de que o sono humano é dividido em dois períodos. Os voluntários precisaram de um tempo para regular o sono mas, na quarta semana, eles apresentaram um padrão de sono muito diferente: eles dormiam por quatro horas, acordavam durante uma ou duas horas e depois dormiam por mais quatro horas. Ekrich encontrou mais de 500 registros do sono humano desde a pré-história. Descobriu que o normal era de que as pessoas se deitassem duas horas após o pôr do sol, depois de quatro horas, se despertavam, saiam para caminhar ou realizavam qualquer atividade durante uma ou duas horas, voltando a dormir por mais quatro horas, em um padrão de sono dividido em dois turnos.
E ainda identificou que o padrão atual de 8 horas ininterruptas pode ser um dos principais fatores da instabilidade emocional, do estresse e de alguns problemas físicos, pois as 8 horas restauram as energias físicas, mas não permitem um relaxamento mental.

Bem Estar - Infográfico sobre cansaço e falta de sono (Foto: Arte/G1)No início da década de 90, o psiquiatra Thomas Wehr realizou uma experiência na qual um grupo de pessoas ficou em um ambiente escuro durante 14 horas por dia em um período de um mês.Dados científicos e históricos sugerem que a recomendação de oito horas ininterruptas de sono por dia pode ser baseada em um mito. Segundo especialistas, o processo biológico natural prevê um sono segmentado em duas partes, mas o padrão foi aos poucos sendo alterado por transformações sócio-culturais. ‘Mais de 30% dos problemas de saúde relatados por médicos têm origem direta no sono. Mas o sono tem sido ignorado em treinamentos médicos e existem poucos centros para o estudo do sono’, afirmou Foster.Mas, a maioria dos médicos não reconhece que o sono ininterrupto de oito horas pode não ser natural.’Muitas pessoas acordam durante a noite e entram em pânico. Digo a elas que isto é apenas uma volta ao padrão de sono segmentado’, disse o neurocientista especialista em relógio biológico da Universidade de Oxford Russell Foster.

E, segundo o pesquisador Roger Ekirch, a Revolução Industrial intensificou ainda mais este processo. A noite virou moda e passar estas horas na cama era visto como perda de tempo. Em 1667, Paris se transformou na primeira cidade do mundo a ter luzes nas ruas. Lille ganhou sua iluminação com velas no mesmo ano e Amsterdã, dois anos depois. Londres ganhou suas luzes em 1684 e, no final daquele século, mais de 50 grandes cidades da Europa contavam com iluminação noturna.Esta tendência se espalhou pela esfera social, mas apenas para aqueles que tinham dinheiro para pagar por velas. Mas, com o início da iluminação pública, as atividades noturnas começaram a se espalhar por todas as classes. Mas, tudo começou a mudar na época da Reforma e da Contra Reforma, no século 16, quando protestantes e católicos começaram a participar de cerimônias noturnas. ‘Mesmo os ricos, que podiam pagar pela luz das velas, tinham coisas melhores nas quais gastar o dinheiro. Não havia prestígio ou valor social associados à noite.”Antes do século 17, as associações feitas com a noite não eram boas’, afirmou o historiador. Segundo Koslofsky, a noite era um período ocupado por criminosos, prostitutas e bêbados. O historiador Craig Koslofsky, tem uma explicação para como a noite mudou, em seu livro Evening’s Empire (‘Império da Noite’, em tradução livre). Noite, crime e luz, o pesquisador atribui esta mudança à melhoria na iluminação pública, na iluminação doméstica e a um aumento do número de cafeterias, que, em alguns casos, ficavam abertas a noite inteira. A noite se transformou em um período de atividade normal e o tempo de descanso diminuiu.

Gregg Jacobs, especialista do Centro de Transtornos do Sono da Faculdade de Medicina da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, afirma que estudos dos últimos dez anos indicam que este não é o tempo ideal de sono para se manter saudável. “Houve cerca de 34 pesquisas – estudos epidemiológicos que acompanham as pessoas durante um tempo, envolvendo mais de dois milhões de pessoas, e que mostram de forma consistente que há uma relação entre duração do sono e mortalidade”, afirma.

Segundo Jacobs, o nível mais baixo de mortalidade corresponde a sete horas de sono. “Então, quando você dorme menos do que sete horas ou mais do que sete, há um aumento gradual no risco de mortalidade, com pessoas que dormem mais mostrando um aumento maior no risco do que as pessoas que dormem menos”, conclui o cientista.

A ideia de que precisamos dormir em um único período pode ser prejudicial à saude, segundo Jacobs, caso as pessoas que acordem à noite fiquem ansiosas.’Na maior parte da evolução nós dormimos de uma certa forma. Acordar durante a noite é parte da fisiologia normal humana’, afirmou Jacobs. E esta parece ser a raiz do problema que acomete muitas pessoas que acordam durante a noite e não conseguem voltar a dormir.Nos dias de hoje a maioria das pessoas parece ter se adaptado ao padrão de oito horas ininterruptas de sono, mas Erkich acredita que muitos problemas do sono podem ter suas raízes na preferência natural do corpo humano por um período de sono dividido em períodos.