O traço cultural é inegável, a vodca, diminuitvo da palavra vody – água em russo -, era brindada desde as mais simples ocasiões em pequenos vilarejos a festejos reais nos palácios da nobreza. Desde o início de sua produção em maior escala, por vezes, o Estado teve que intervir, tomando para si o monopólio da comercialização da bebida, na tentativa de conter a produção de vodca de má qualidade. As falsificações prejudicavam os cofres do Império – que cobria todas as despesas básicas do Estado com os impostos sobre a vodca – e assolava a população por uma série de intoxicações.

O presidente russo Vladimir Putin ordenou a seu governo que contenha o aumento dos preços da vodka, enquanto ele luta para preservar sua popularidade em meio a uma grave crise econômica. O preço de venda mínimo regulamentado pelo governo de meio litro de vodka aumentou cerca de 30% desde o ano passado para 220 rublos.A economia da Rússia deve entrar em recessão em 2015 devido à queda dos preços do petróleo e à sanção ocidental devido à crise na Ucrânia. A inflação anual, por sua vez, deverá ser superior a 10% este ano.

Um estudo, publicado no jornal especializado The Lancet, diz que 25% dos homens russos morrem antes dos 55 anos, a maioria deles por causa do álcool. No Reino Unido, a proporção é de 7%. Já no Brasil, onde a violência mata muitos jovens, 37% dos homens não chegam a completar 55 anos. As causas de morte relacionadas à bebida na Rússia incluem doença hepática e intoxicação por álcool. Muitos também morrem em acidentes ou brigas.

"This is amazing!"“As taxas de mortalidade dos russos têm flutuado descontroladamente nos últimos 30 anos, na medida em que as restrições ao álcool e a estabilidade social variaram sob os presidentes (Mikhail) Gorbachev, (Boris) Yeltsin e (Vladimir) Putin. A vodca foi o principal fator determinando essa variação no número de mortes “, disse o professor de Oxford Richard Peto, um dos autores do estudo.

Cada adulto russo bebe, em média, 13 litros de álcool puro por ano, dos quais 8 litros de destilados, principalmente vodca. No Brasil o número comparável é de 9,2 litros por adulto, sendo que 54% desse consumo é cerveja e 40%, destilados.

A bebida estava estabelecida no cotidiano dos russos. Pedro, o Grande, instituiu o gole punitivo em seu reinado (1682 – 1725), passatempo em os que atrasados a uma reunião eram supostamente forçados a entornar uma caneca de vodca. Os russos bebiam em negociações. Bebiam na colheita. Na falta de dinheiro, pagavam em bebida. Subornavam em bebida. A mulher entrou em trabalho de parto? Davam-lhe vodca. O bebê não parava de chorar. Uma colher de vodca para acalmar. Um terço das despesas estatais era pago com os impostos sobre a vodca.

Os escritores russos do século XIX como Tchekhov e Tolstoi criaram, em 1887, a Liga contra a Embriaguez. Tolstoi, por exemplo, criou o que talvez tenha sido o primeiro rótulo alertando para o perigo das bebidas alcoólicas, com uma caveira e dois ossos cruzados com a palavra “veneno” abaixo. No fim, a proposta foi recusada pela Duma – Assembléia Nacional da Rússia. O czar Alexandre II lançou políticas econômicas mais agressivas e a indústria cresceu. A produção de vodca passara da igreja para o Estado que transferiu para a Nobreza. Ele libertou 22,5 milhões de servos russos, dois antes de Lincoln acabar com a escravidão nos EUA. Um desses ex-servos era Piotr Smirnov, que se tronaria conhecido como rei da vodca.

Nicolau II restituiu o monopólio do comércio alcoólico em 1895. Ele perderia a Guerra Russo-Japonesa em 1905. Generais japoneses reconheceram que algumas vitórias ocorreram graças ao porre dos soldados russos. Durante a Primeira Guerra, o czar decretou a lei seca, a primeira do gênero na História. Os soldados ficaram prontos para a Guerra na metade do tempo previsto. A criminalidade caiu. De um só golpe, libertou-se da maldição que paralisou a vida dos camponeses por gerações. Isso era uma revolução.

Chart showing the high risk of death among Russian men

“Os russos sempre beberam muito. Eles às vezes dizem que é por causa do frio, mas isso é apenas uma desculpa. Este é o estilo de vida da nação, que precisa mudar”, disse o pesquisador David Zaridze, do Centro de Pesquisa do Câncer da Rússia.

“A expectativa de vida média dos homens na Rússia ainda é de apenas 64 anos, ficando entre as 50 menores do mundo. São urgentemente necessárias políticas mais eficazes de (restrição ao consumo de) álcool e tabaco”, defendeu.

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