Os lares formados apenas por um casal são um entre os vários arranjos familiares que fogem da imagem tradicional de família, formada por homem, mulher e crianças. No Brasil, a taxa de 19% de lares sem filhos é um indício de um movimento. Há pouco mais de dez anos, esse número era de 14%. Entre eles, 20,7% são casais em que ambos têm renda. Para esse caso há um nome especial: são os dinks (“double income, no kids” – em português renda dupla, sem filhos). Ter menos filhos ainda acompanha a diminuição de fecundidade, as mudanças no comportamento feminino e o processo de urbanização, como aponta Taís Santos, do Fundo de População das Nações Unidas. “O custo do filho é maior e deixa de ser atraente a ideia de uma família muito numerosa que, no campo, quando eram necessários mais braços na agricultura, fazia sentido”, diz Taís. Segundo um levantamento de 2013 feito pelo Instituto de Vendas e Trade Marketing (Invent), um filho pode custar, dependendo da faixa de renda da família, entre R$ 2 milhões (classe A) a R$ 407 mil (classe C), do nascimento até os 23 anos.

A psicanalista suíça Corinne Maier, autora de “Sem Filhos – 40 Razões para Não Ter” (Intrínseca), esclarece: “Este pequeno livro tem como objetivo desmotivar pais em potencial que ainda se perguntam se vale a pena ter filhos”, explica a autora, indignada com a política pró-natalidade adotada pela França. Ao contrário do que acontece no Brasil onde, segundo pesquisa do Ministério da Saúde, há queda na taxa de natalidade (1,8 filho por mulher) e crescimento, de acordo com o IBGE, da ordem de 80% no número de casais que nos últimos dez anos resolveram não procriar, os franceses tem comemorado o maior índice de fertilidade da Europa: dois filhos por mulher. 

Corinne Maier analisa a onda de idealização e glamourização da maternidade, onipresente na mídia, com um discurso herético e politicamente ncorreto, questionando um dos tabus mais intocáveis da sociedade: a necessidade de ter filhos. Apesar do crescimento do movimento e das associações dos casais que optam por não ter crianças, a recusa em ter filhos é uma atitude suspeita.
Diante disso, a escritora ressalta que quanto mais cresce a fertilidade, menos as pessoas se declaram felizes, e aborda sem rodeios as dificuldades das relações entre pais e filhos. Mostra que não se trata apenas de amor, mas de sentimentos ambíguos que envolvem também ódio, culpa, ressentimento e ciúme. Maier denuncia a banalidade e as limitaações da vida doméstica dos que tem filhos e os malefícios da educação moderna, na qual a criança é o centro da família. Investiga o consumismo determinado pelas crianças, a indiferença dos adolescentes e as inevitáveis decepções dos pais com suas crias.

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Segundo Laura Carroll, autora do livro “The Baby Matrix: Why Freeing our Minds From Outmoded Thinking About Parenthood & Reproduction Will Create a Better World” (em tradução livre, “Por que Libertar Nossas Mentes da Visão Antiquada sobre Paternidade e Reprodução Criará um Mundo Melhor”), convivemos por tanto tempo com crenças que estimulam as pessoas a terem bebês que elas se tornaram normas. “Não segui-las, portanto, mostraria que há algo errado conosco”, afirma. Mas não há. Ter filhos vem deixando de se tornar um passo automático na vida para se tornar uma opção. “Existem homens e mulheres que têm vocação para ser pai e mãe, outros não. É preciso pensar sobre isso e sobre toda a responsabilidade”, diz Edson Fernandes, coautor do livro “Sem Filhos por Opção” (editora nVersos). “Na pesquisa, percebi que os mais conscientes disso são os jovens, também mais livres de preconceitos.” Isabel Gomes, da USP, concorda. “Surgiu uma igualdade de gêneros, pelo menos entre os casais mais novos e de dupla carreira”, afirma.

A escritora norte-americana Madelyn Cain lançou o livro “The Childless Revolution” (“A Revolução das Sem-filhos”), em que diz que, apesar do crescimento, essas mulheres continuam vítimas de preconceitos variados. Cain defende a tese de que o grupo das “childless” vive hoje uma situação semelhante à dos homossexuais 20 anos atrás -estão perto de, em suas palavras, “sair do armário”. Um levantamento feito pelo Datafolha em 1998 estimava em 10% o número de mulheres com mais de 40 anos sem filhos.

Lançado em 2001, o livro de Madelyn costura números na tentativa de caracterizar, ao menos nos EUA, uma tendência populacional. Em 1965, 43,5% dos casais do país não tinham filhos; em 1996, o percentual saltou para 53%. Em 1998, 42,2% das mulheres adultas não tinham filhos. Na faixa entre 40 e 44 anos, próxima do final da idade reprodutiva, eram 19%, quase o dobro de duas décadas atrás. “Em breve, mulheres sem filhos serão regra, não exceção”, conclui Cain.

De acordo com o Censo 2000, os Estados Unidos contam hoje com 33,7 milhões de famílias sem filho, ou 31,9% do total de lares norte-americanos, um aumento de 10% na última década. Proliferam os grupos relativos ao movimento dos sem-filho.

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