Ex-colônia portuguesa de apenas 1,6 milhão de habitantes, a Guiné-Bissau sofreu cinco golpes desde sua independência, em 1974, e é um dos principais entrepostos da cocaína que sai da América do Sul rumo à Europa. Em 40 anos, o país nunca teve uma transferência de poder legítima, de presidente eleito para presidente eleito. O último golpe de Estado foi em 2012. Agora, os guineenses se preparam para voltar à democracia: votaram para presidente em abril, e o segundo turno ocorre em 18 de maio. Isso se os militares deixarem. As Forças Armadas periodicamente interrompem a ordem democrática.

À frente da empreitada está o ex-chanceler Antonio Patriota, representante do Brasil na ONU, que preside a Comissão de Construção de Paz do organismo. “Após as eleições, temos uma agenda de modernização do setor de segurança que inclui desde cuidar da aposentadoria dos militares até modernizar as Forças Armadas”, disse à Folha. Outro plano é trabalhar com a diversificação da produção no país –mais de 50% das pessoas dependem da castanha de caju. “Os recursos necessários são modestos, por isso a Guiné-Bissau tem tudo para ser um exemplo bem-sucedido de reconstrução pós-conflito”, diz.

“Trata-se de um país que pode entrar no rumo com recursos reduzidos, e o Brasil pode cumprir essa função”, ecoa Pedro Cardoso, chefe da divisão de África 2 do Itamaraty. “É uma vitrine para nosso trabalho de cooperação internacional.” Mas trata-se de uma aposta arriscada. “Muitos outros já tentaram transformar a Guiné-Bissau e não conseguiram”, pondera Adriana Abdenur, professora de relações internacionais da PUC do Rio, que estuda a atuação brasileira na África.

A ação do Brasil vai da formação de diplomatas até combate ao HIV, processamento de caju e diversificação de culturas. Mas as ações sofrem com a instabilidade. No final de 2011, o Brasil abriu um centro para formar forças de segurança. Em caráter experimental, treinou três grupos de policiais. Mas logo veio o golpe de 2012, e o centro foi desativado. Neste ano, foi cedido à ONU. O país investiu na Guiné-Bissau US$ 7 milhões pela Agência Brasileira de Cooperação desde 2002 e ao menos mais US$ 10 milhões em outros tipos de cooperação. E o Ministério de Defesa deve assumir papel maior na modernização das forças do país.

A própria Comissão de Construção de Paz das Nações Unidas é vista pelo Brasil como projeto importante. Ela foi criada em 2005, fruto da pressão de países emergentes por reformas na ONU. Patriota compara: “O Conselho de Segurança é como se fosse a UTI –é acionado para remediar uma emergência”, diz. Já a comissão seria um centro de reabilitação para os países que saem da UTI.

Para Issac Murargy, secretário-executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a fase pós-eleitoral na Guiné-Bissau será determinante. “Eles precisam de uma grande injeção de recursos internacionais”, disse à Folha. Isso depende, em parte, da capacidade de mobilização da comissão de paz. “Além disso, o narcotráfico continua muito presente.”

O ex-comandante da Marinha do país José Américo Bubo Na Tchuto foi preso em alto-mar por agentes dos EUA em abril de 2013, por tráfico de drogas. O comandante das Forças Armadas, general Antonio Injai, patrocinador do golpe de 2012, é acusado de tráfico de drogas e armas.

O Brasil se prepara para retomar os programas de ajuda assim que houver um governo formado. No primeiro turno, José Mário Vaz, do principal partido, o PAIGC, ganhou com 41% dos votos e disputa o segundo turno com Nuno Nabiam, que teve 25%.

ethnies_guinee_bissauOs guineenses na sua esmagadora são de raça negra e originários de cerca de 40 etnias. Um verdadeiro mosaico de povos e culturas. Agrupamentos étnicos da Guiné-Bissau:

1.Paleossudaneses e outros povos:

Grupo litoral : Balantas (Balantas manés, Cunantes e Nagas), Djolas (Bbaiotes e Felupes), Banhuns, cassangas e Cobianas, Brames, Majancos e Papéis, Bijagós, Biafadas, Nalus, Bagas e Landumãs. Grupo Interior: Pajadincas (Bajarancas) e Fandas

2.Neo-Sudaneses.

Grupo Mandinga: Mandingas, Seraculés, Bambarãs, Jacancas, Sossos, Jaloncos. Grupo fula: Fulas forros (fulacundas) fulas pretos, futajoloncas (Boencas, futa-fulas  e futa-fulas pretos), Torancas (Futancas ou Tocurores).

Os grupos mais importantes são os balantas (30% da população), os Fulas (20%), Maníacas (14%), Mandingas (13%), e os Papéis (7%) (dados de 1996). No litoral predominam os Balantas que cultivam arroz e gado bovino. Os Bijagós, que habitam no arquipélago com o mesmo nome, forma uma sociedade matriarcal. O Interior é ocupado pelos Fulas que são nómadas, dedicam-se à criação de gado e à agricultura itinerante.

Os cultos tradicionais são predominantes (45,2%),  seguindo-se os islâmicos (39,9%) e os cristãos (13,2%), sendo os católicos (11,6%), outros 3,8% de evangélicos. O número dos que se afirmam sem religião ou ateus é mínimo (1,6%).