A Homilética é a ciência do qual a arte é a pregação e o produto é o sermão. A origem da palavra “Sermão” é do Latim SERMO, “fala, discurso”. Originalmente queria dizer “encadear palavras”, usando a raiz do verbo SERERE, “unir” (que originou a palavra “série”).

Antes do Concílio Vaticano II, na Igreja, se escutava o SERMÃO do Padre, pois era uma fala dogmática. Hoje, se escuta a HOMILIA do Padre, no sentido de a fala ser mais explicativa do que dogmática.

A expressão “homilética” tem sua origem nos substantivos gregos “homilia” (sig. Associação, companhia – 1Co 15.33) e “homilos” (sig. Multidão, turma, assembleia do povo – At 18.17) e no verbo da mesma língua “homíleo” (sig. Falar, conversar – Lc 24.14s; At 20. 11; 24.26).

O documento da CNBB acrescenta que “[…] Para o 3° milênio, as exigências permanentes da evangelização serviço (diakonia), diálogo-anúncio (kerygma), comunhão (koinonia) foram resumidos pelo Papa no Sínodo das Américas: “conversão, comunhão e solidariedade”.

Karl Barth, em Church Dogmatics, defende o uso do verbo matheteuein em lugar de keryssein (pregar) que aparece nos textos de Mc 16:15 e Lc 24:47 ou euangelizesthai (pregar boas novas) que é usado em Mat. 11:5. No contexto, a ordem é dada com o propósito de fazer discípulos, não somente confrontar ou desafiar os ouvintes.

triangle-modelBatizando e ensinando de Mat. 28 expressam o modo como a missão de fazer discípulos se realiza. Ele lembra que as autoridades civis são diakonos para Deus e leitourgoi (ministros) seus representantes são conforme Rom. 13:3-6.

A propósito, em Proclamacion del Evangelio[1], Barth descreve o kerygma como a vinda de Cristo até o retorno do Senhor. A pregação neotestamentária possui duplo movimento: “Deus tem se revelado, Deus se revelará.”. A Epifânia é a anunciação da vinda de um rei ou de um Deus. A Parousia significa a presença literal a partir de sua anunciação.

Para ele, todo discurso veria sair do respeito à Escritura. O conhecimento do momento presente tem a sua importância. Barth ainda aconselha: “Não se deve fazer uma pregação sobre um tema e sobre um texto (homilia).”.

Proclamação e ensino

As igrejas precisam distinguir estes dois componentes na proclamação do evangelho: o testemunho e a pregação. Os crentes precisam ser motivados a testemunhar onde se encontram. Essa é uma lacuna crítica: o espaço entre a casa e a igreja. Quando acontece, o avivamento se torna evidente neste espaço. Se os crentes não testemunham, não existe avivamento. O testemunho precisa ancorar na Palavra. A Palavra é causa e consequência. Isto é, os crentes necessitarão de mais conhecimento. A igreja deverá fornecer a kerygma através de seus apóstolos, mestres e profetas. A motivação para o testemunho (martyria) será provido pelos evangelistas e pastores.
kerygma1Muitas igrejas fornecem a palavra kerygma apenas através de seus púlpitos. Isto torna a congregação demasiadamente dependente do pastor, o que muitos estudiosos chamam de crescimento do sacerdotal ismo. Algumas igrejas estão retornando com escolas bíblicas não apenas para promover a edificação espiritual, mas à necessidade de prover conhecimento bíblico aos crentes.

Ray Stedman, no livro IGREJA, CORPO VIVO DE CRISTO [2] destaca que a igreja nascente confiava assim num testemunho duplo, como um meio de alcançar e imprimir sobre um mundo cínico e descrente o kerygma (proclamação) e a koinonia (comunhão). Foi a combinação desses dois elementos que tornou seu testemunho tão poderoso e eficiente. “Pelo depoimento de duas ou três testemunhas se estabeleça toda palavra.” Os pagãos poderiam desfazer facilmente a proclamação, como simplesmente mais uma “doutrina” entre muitas; mas eles viram que é muito mais difícil rejeitar a evidência da koinonia. O interesse dos cristãos um pelo outro e sua evidente consciência de estarem compartilhando a vida na mesma grande família de Deus como irmãos e irmãs deixavam o mundo pagão se lambendo de inveja. Foi isso que levou à observação muito citada de um escritor pagão: “Como se amam mutuamente esses cristãos!”

Para Bertil Ekstrom[3], no artigo Witness to Christ in Latin America, na America Latina, todas as igrejas apresentam a dimensão kerygma junto com a diaconia. Nossos estudos comprovam esta combinação. Bertil adverte que existe uma ausência de discipulado e consequente dicotomia entre a vida dominical nas igrejas e a vida diária nas comunidades.

O verbo “kerysso” aparece 61 vezes no Novo Testamento (19 vezes nas epístolas pastorais, 8 vezes em Atos, 9 vezes no Evangelho de Mateus e 9 vezes em Lucas, 14 vezes em Marcos, 1 em I Pedro e 1 vez em Apocalipse) e significa anunciar. Uma análise do objeto gramatical do verbo revela que, nas passagens mais antigas de Paulo (I Ts 2.9; Gl 2.2, mas também em Cl 1.23) e em alguns contextos de Marcos (Mc 1.14, 13.10, 14.9) e de Mateus (4.23, 9.35, 24.14 3 26.13), o objeto é to evangelion, o evangelho.

Quando percebemos o conteúdo daquilo que tem sido ensinado em muitas igrejas, a preocupação precisa invadir o coração de todos os que amam o Senhor. O evangelho tem-se diluído e o evangelho que vem sendo pregado não reflete todo o desígnio do Pai, mas apenas aquilo que alguns líderes querem ensinar segundo sua conveniência. Muito disso é fruto de uma hermenêutica alegórica, que não leva a sério aquilo que as Escrituras ensinam, mas vale-se de visão pluralista de que cada um tem a sua verdade, portanto, veem-se no direito de proclamá-la. Sobre essa superficialidade, o clérigo alemão Bonhoeffer, que se opôs a Hitler e ao nazismo, chamou essa teologia de “graça barata”. Ele disse:

“Graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, batismo sem disciplina eclesiástica, comunhão sem confissão, absolvição sem confissão pessoal. Graça barata é graça sem discipulado, graça sem cruz, graça sem o Jesus Cristo vivo e encarnado”.

[1]              Proclamacion del Evangelio, Karl Barth

[2]              IGREJA, CORPO VIVO DE CRISTO, Ray Stedman

[3]              Witness to Christ in Latin America, Bertil Ekstrom