Os hierarcas máximos das quinze Igrejas Ortodoxas existentes, representando quase 230 milhões de fiéis em todo o mundo, vieram a Moscou, em julho de 2013. São as Igrejas Ortodoxas de Constantinopla, Jerusalém, Rússia, Geórgia, Polônia e uma série de outras. Os sacerdotes e hierarcas debateram com o presidente as principais questões da vida das comunidades ortodoxas, as relações inter-religiosas e internacionais e também o estado espiritual e moral da sociedade moderna.

Vladimir Putin declarou que o Estado e a Igreja são parceiros na solução dos problemas atuais. Cumprimentando os chefes da Igreja a propósito da efeméride, o chefe de Estado assinalou o papel especial da Ortodoxia na história do país: “A adoção do Cristianismo predeterminou o destino e a opção civilizadora da Rússia, foi um momento decisivo de virada na história laica e religiosa do Estado. As bases morais da fé ortodoxa formaram o caráter nacional e a mentalidade do povo, revelaram suas melhores qualidades criativas, ajudaram a Rússia a ocupar um lugar digno na civilização mundial. A Ortodoxia foi a base espiritual do Estado russo, da nossa consciência nacional. Ligou com laços fraternais fortes a Rússia, a Ucrânia e a Bielorrússia”.

Parece evidente que Putin usa o argumento religioso para manutenção no poder. Suas declarações e políticas revelam um esforço para reativar alianças com as antigas províncias da URSS que ganharam independência. No Mapa, percebemos que o percentual de seguidores da igreja oriental é menor nas fronteiras com a Europa e outras regiões mais distantes de Moscou. Muitos analistas entendem que o conflito na Síria tem um componente de peso devido às relações com a Rússia, além da animosidade entre sunitas e xiitas. Existe o temor de aniquilação dos cristãos orientais na Síria assim como ocorreu no Iraque. Em outra fronteira, a Rússia utiliza seu petróleo e gás para atrair países de origem eslava que se voltaram mais para a Europa nas últimas décadas. Recentes protestos na Ucrânia revelam a luta entre o pensamento secular e o religioso.

2010-Russian_Orthodox_Church_followers

Embora o comunismo tenha deixado de existir, a diferença entre o Ocidente e a Rússia é mantida, precisamente ao nível ideológico-religioso, pelo reconhecimento de que a existência do Cristianismo Ortodoxo, tendo como Estado-Núcleo a Rússia representa algo muito diverso do Cristianismo Católico ou Protestante (e, portanto, Ocidental). A maioria dos estudiosos reconhece isto e os russos são os primeiros a defenderem que são, em parte, o limite do Ocidente, mas também, algo diverso. Huntington, como outros, faz a diferenciação traçando a origem da ortodoxia no Império Bizantino, que foi o Romano do Oriente, mas depois deixou de ser Romano, para passar a uma especificidade toda própria. Diz ainda que a falta de Renascimento, Iluminismo e a exposição, durante séculos ao domínio Tártaro, forjaram, na Rússia, uma realidade muito distinta da Ocidental.

Dostoiévski disse que, se alguém o convencesse de que Cristo era contrário à “verdade”, preferiria ficar com Cristo a ficar com “a verdade” (o que supostamente significa a verdade da razão). Seu artigo foi escrito, devemos lembrar, quando os russos sofriam perdas terríveis durante a Guerra Russo-Turca.  Ele se considerava um membro fiel da Igreja Ortodoxa Russa, cujos dogmas, deve-se lembrar, são muito mais fluidos que os da Igreja Católica Apostólica Romana. Quanto ao significado do sofrimento na existência humana, é importante lembrar que Dostoiévski falava em “sofrimento moral”, decorrente do fracasso em cumprir a lei de Cristo. Não se referia ao “sofrimento” causado pela privação material. No documento citado, ele escreveu que “o homem luta na terra por um ideal oposto à sua natureza”, e esse ideal exige que sacrifique seu ego às pessoas ou a outra pessoa. Quando deixa de fazê-lo, “sofre e chama isso de pecado”. Mas ele acreditava que esse sofrimento era “compensado pela alegria celestial de cumprir a lei, isto é, pelo sacrifício”.

A relação entre o povo russo e os povos eslavos sempre foi bipolar. Em “Diário de um Escritor”, 1877: “A Rússia nunca terá, e nunca teve ainda, inimigos tão injuriadores, tão invejosos, tão caluniadores e até tão declarados como todos esses povos eslavos, logo após a Rússia os ter libertado e de a Europa ter concordado em reconhecer a sua libertação! E não contestem, nem gritem comigo que eu exagero ou que odeio os eslavos!”