Em 2010, de acordo com dados oficiais, um em cada cinco casamentos na China terminou em divórcio, número que representa o dobro do registrado há 10 anos. “Os pais consentiram muito com à geração Y. Os jovens se acostumaram a ter tudo e, depois, quando se casam, não se toleram”, explica Duan, advogado e especialista em assuntos conjugais de Pequim.

casamento-e-separacao-1O aumento do número de divorciados é ainda marcado pelas facilidades burocráticas que o governo chinês introduziu em 2003, que permitem que os casais se divorciem em um dia de trâmites. Nesse ano, a taxa de divórcio cresceu 5,1% em comparação ao ano anterior, e o número de casais divorciados chegou a 1,33 milhão, 154.000 a mais do que em 2002.

Muitas famílias optaram pelo divórcio para não perder 20% do seu investimento para a burocracia imobiliária mandarim, ou para poder adquirir um segundo imóvel que, além de possibilitar uma renda extra mensal com alugueis, pode ser depois utilizado pelo filho do casal quando este se casar.

“Eu não acredito que os divórcios estejam aumentando somente em função da lei, pois ela é muito recente. Mas há pessoas investindo em divórcios ‘falsos’ para fugir da taxação tributária”, comenta Valerie Chang, advogada norte-americana que pesquisa a relação entre riqueza e divórcios na China.

Outros chineses decidiram investir em um “casamento de emergência” para conseguir burlar a regra e garantir sua entrada no rico mercado imobiliário do leste chinês – que deverá movimentar US$ 1 trilhão em 2013, de acordo com o Birô Nacional de Estatísticas da China. Como a lei do divórcio garante que o imóvel adquirido é daquele que pagou pela propriedade, e não de quem o registra, o negócio se provou lucrativo para muitas mulheres de classe média e baixa, que tinham apenas um hukou de Pequim como vantagem no comércio do matrimônio.

Uma mulher, conforme o jornal China Daily, chegou a se casar com três homens e se divorcia deles em apenas cinco meses. Segundo o Ministério dos Assuntos Civis da China, o país registra hoje uma média de 5 mil divórcios por dia.

Em Xangai, o aumento de 13,16% no volume de pedidos de divórcio levou o governo local a lançar um limite diário para dissoluções de matrimônios.

A lei do matrimônio é ligada à ascensão do Partido Comunista ao poder, em 1949. A primeira regulação para a união de casais data de 1950 – quatro anos antes de a República Popular ter uma constituição. É de origem comunista também a criação do hukou – o sistema de registro de residência lançado por Mao Tsé-tung que liga uma família a sua cidade natal, dificultando o movimento populacional dentro do país (e garantindo que os camponeses ficassem no campo).

A lei do filho único, estipulada em 1979 para conter o crescimento populacional, também é obra comunista. E até 20 anos atrás, casamento e divórcio eram tratados como um assunto social e passível de aprovação, para ambos os casos, de empregadores e chefes do governo local.

Para Valerie, o boom econômico é uma causa considerável para a mudança do entendimento cultural do matrimônio. “O desenvolvimento econômico levou as pessoas a tomarem atitudes mais pragmáticas. Casamentos se tornaram muito mais complicados com dinheiro, riqueza, infidelidade, crianças.” Outro motivo para divórcio criado pela nova regulamentação do investimento imobiliário é o restrito acesso das crianças a escolas registradas na mesma área do domicílio. Assim, muitos pais decidiram se divorciar e mudar o registro de residência da mãe e da criança para o hukou dos avós ou outros parentes que morem perto de escolas melhores.

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