Em 1852, o escritor francês Victor Hugo (1802-1885), um dos maiores poetas da França, exilou-se na ilha de Jersey, entre a França e a Inglaterra, por motivos políticos. Ali, teve contato com a mesa girante, espécie de reunião cujo objetivo era receber espíritos de pessoas mortas para psicografar suas falsas mensagens. A França sempre amou a Astrologia e o contato com espíritos. A atuação da igreja cristã deixou marcas negativas no tocante a relação com o Estado e com o povo. Revoluções, guerras e fome sobrecarregaram o espírito do povo tornando-o descrente e próximo de experiências espirituais que não criasse vínculo com religiões. Daí, o crescimento do espiritismo.

Escreveu 22 livros de poesias, até hoje recitadas pelos franceses e ensinadas nas escolas; 8 romances, dentre os quais os memoráveis “Os Miseráveis” e “O Corcunda de Notre-Dame”, ambos com incontáveis adaptações para o cinema e o teatro; 14 peças de teatro, sendo que várias delas não param de ser encenadas; mais 15 volumes de prosa em não-ficção, ensaios, diários, artigos políticos, entre outros.

Realizou, entre 1853 e 1855, inúmeras sessões de mesa falante (ou girante), a fim de se comunicar com espíritos –com sua filha Léopoldine, que havia morrido aos 19 anos, em 1843, afogada no Sena, mas também com William Shakespeare (1564-1616) e Dante (1265-1321).

Writing Table designed by Victor HugoEssa experiência é tema de uma exposição em cartaz (até 20 de janeiro) no museu Maison de Victor Hugo, em Paris: “Entrée des Médiums – Spiritisme et Art d’Hugo à Breton”.

O título, “Entrada dos Médiuns”, vem de um texto do escritor André Breton (1896-1966), líder do surrealismo, movimento literário e artístico que se interessou pelos fenômenos mediúnicos e chamou a atenção para a obra de médiuns-pintores.

PARANORMAIS

A primeira parte da mostra trata das relações de Hugo e sua família com o espiritualismo, expondo desenhos do poeta, fotos feitas por seu filho (e principal médium) Charles Hugo, além de manuscritos com as transcrições de mensagens colhidas na mesa falante de Jersey.

A segunda e a terceira partes trazem trabalhos de artistas-médiuns e de médiuns-artistas, todos eles pouco conhecidos e em geral classificados como “art brut”, tais como Fernand Desmoulin (1853-1914), Victorien Sardou (1831-1908) e Hélène Smith (1861-1929), por exemplo.

O principal interesse da sessão sobre a metapsíquica (corrente de estudos criada pelo cientista Charles Richet com a finalidade de pesquisar fenômenos paranormais) é a série de fotos da médium Marthe Béraud expelindo ectoplasmas (materializações de espíritos).

Em uma página poética de Les Contemplations, escrita em 1854, intitulada “O que é a morte”, ele dedica este verso aos incrédulos:

“Não diga morrer: diga nascer; acredite” (Hugo, Contemplations, p. 412).

É mais uma vez em Les contemplations que ele canta a submissão do homem diante da vontade de Deus, em face das dores que afetam a humanidade; Hugo afirma, então, no poema À Villequier:

Eu digo que o túmulo que sobre os mortos se fecha
Abre o firmamento;
E o que acreditamos aqui em baixo ser o fim
É o começo. (Hugo, Contemplations, p. 255).

Infinitamente angustiado pela ausência de sua filha morta, Hugo escreve os versos “Amanhã, ao alvorecer”, nos quais dialoga, ternamente e em voz baixa, com sua filha morta, que sente ainda muito próxima a ele:

Amanhã, ao alvorecer, à hora em que clareia o campo
Eu partirei. Vê, eu sei que me esperas,
Eu irei pela floresta, pela montanha,
Eu não posso ficar longe de ti muito tempo. (Hugo, Contemplations, p. 253).

Em meados do ano de 1855, Allan Kardec presenciou o fenômeno das mesas que giravam, saltavam e corriam, em condições tais que não deixavam lugar para qualquer dúvida. Kardec, no capítulo II da 2.ª parte de “O livro dos médiuns”, declara o seguinte: “Como quer que seja, as mesas girantes representarão sempre o
ponto de partida da Doutrina Espírita e, por essa razão, algumas explicações lhes devemos, tanto mais que, mostrando os fenômenos na sua maior simplicidade, o estudo das causas que os produzem ficará facilitado e, uma vez firmada, a teoria nos fornecerá a chave para a decifração dos efeitos mais complexos”.