A família linguística indo-europeia reúne alguns dos idiomas mais falados em todo o planeta. Até o século 16, eles se restringiam à Europa e ao leste asiático, mas se espalharam pela América, África e Oceania. Hoje em dia, é falada por quase três bilhões de pessoas em todo o mundoA segunda maior família de línguas é a sino-tibetana, que inclui o chinês, o tibetano e o birmanês, e é falada por 1,3 bilhão de pessoas.

“Em toda a Terra, havia somente uma língua, e empregavam-se as mesmas palavras. Emigrando do Oriente, os homens encontraram uma planície na terra de Sinar e nela se fixaram. Disseram uns para os outros: ‘Vamos fazer tijolos, e cozamo-los ao fogo.’ Utilizaram o tijolo em vez da pedra, e o betume serviu-lhes de argamassa. Depois disseram: ‘Vamos construir uma cidade e uma torre, cujo cimo atinja os céus. Assim, havemos de tornar-os famosos para evitar que nos dispersemos por toda a superfície da terra.’ O SENHOR, porém, desceu, a fim de ver a cidade e a torre que os homens estavam a edificar. E o SENHOR disse: ‘Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projetos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreender-se uns aos outros’. E o SENHOR dispersou-os dali por toda a superfície da Terra, e suspenderam a construção da cidade. Por isso, lhe foi dado o nome de Babel, visto ter sido lá que Deus confundiu a linguagem de todos os habitantes da Terra, e foi também dali que os dispersou por toda a Terra.” Gênesis 11, 1 – 9.

Até agora, os cientistas haviam desenvolvido duas teorias para explicar a origem da família indo-europeia. Uma delas propunha que ela era descendente de um idioma falado por um povo seminômade que habitava estepes ao norte do Mar Cáspio, na Rússia, há 6.000 anos. A outra hipótese previa que a língua havia surgido na região da Anatólia, no extremo oeste asiático, onde hoje se encontra a Turquia. Segundo essa teoria, ela teria se espalhado pelo mundo entre 9.500 ou 8.000 anos atrás, com a expansão da agricultura.

A palavra “mãe” demonstra que foi na atual Turquia que se originaram centenas de línguas tão diversas, como o hindi, o espanhol, o russo, o holandês, o albanês e o inglês, segundo estudo publicado na edição desta quinta-feira da revista Science.
Graças a um complexo modelo informático projetado originalmente para mapear epidemias, cientistas detalharam a evolução da família das línguas indoeuropeias. Semelhanças entre centenas de línguas faladas da Islândia à Índia deram lugar a acalorados debates sobre o local onde se originaram e o que sua propagação e evolução podem dizer sobre os primeiros humanos.

A lingüística torna-se uma ciência no século XIX, ao adotar o método de estudo denominado “histórico-comparativo”. Esse método surgiu ainda no final do século XVIII, na Índia, então colônia da Inglaterra. Um alto funcionário britânico da Companhia das Índias Orientais, Sir William Jones, grande conhecedor de línguas, percebeu diversas semelhanças entre o sânscrito, o grego, o latim e as línguas germânicas (como o inglês). Como não havia evidência histórica de contato entre Europa e Índia, e como os textos em sânscrito eram muito mais antigos que os gregos ou latinos, Jones imaginou que todas essas línguas seriam aparentadas e teriam um ancestral comum.

Essa hipótese levou ao estudo sistemático da história dessas línguas, através da comparação das suas formas, e as semelhanças e diferenças entre as palavras de cada uma permitiriam reconstruir o idioma primitivo do qual teriam se originado. Essa língua hipotética, o “indo-europeu”, teria sido falada em algum lugar entre a Europa Oriental e o Oriente Médio entre 8 mil e 4 mil anos a.C. — muito antes da invenção da escrita. Não há qualquer registro dessa língua, mas seu vocabulário e sua gramática são bem conhecidos hoje, graças ao processo de reconstrução. Comparando, por exemplo, o sânscrito vrkas, o grego lykos, o latim lupus, o gótico wulfs, o lituano vilkas e outros, chegou-se à palavra hipotética indo-européia wlkwos, que significa “lobo”.

A teoria dominante é que as línguas faladas atualmente por 3 bilhões de pessoas provêm de nômades da Idade do Bronze, que utilizaram cavalos e carroças para se espalhar ao leste e a oeste das estepes do norte do Mar Cáspio, perto da atual Ucrânia, de 5.000 a 6.000 anos atrás. Outros afirmam que foi a agricultura – e não o cavalo e a roda – que ajudou a difundir as línguas e apontam suas origens para a atual Turquia há 8.000 ou 9.500 anos.

Os pesquisadores da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, resolveram testar qual desses cenários era mais provável. Para isso, resolveram adaptar um método estatístico utilizado por biólogos evolutivos para estudar a evolução de algumas espécies. Esses cientistas costumam usar semelhanças e diferenças no DNA para traçar as origens dessas espécies e montar uma árvore genealógica com seus ancestrais.

Os pesquisadores usaram a mesma abordagem para montar a árvore genealógica dos idiomas indo-europeus. Em vez de procurar por semelhanças no DNA, buscaram por palavras cognatas em 103 idiomas da família, desde os mais modernos aos já extintos. Depois de montar a árvore genealógica e de traçar como cada língua se espalhou pela Europa e Ásia, eles estimaram onde cada uma delas havia surgido, chegando até o idioma original.

Como resultado, confirmaram que a família indo-europeia surgiu na Turquia entre 8.000 e 9.500 anos atrás. Segundo os pesquisadores, o desenvolvimento da agricultura levou essa “língua-mãe” ao resto da Europa e oeste da Ásia. Com a evolução do idioma e a relação com outras culturas, acabaram surgindo diversas subfamílias no decorrer do tempo. As cinco principais, que são faladas ainda hoje – o céltico, germânico, itálico, balto-eslavo e indo-iraniano – começaram a se diferenciar entre 4.000 e 6.000 anos atrás.