Se Henrique Capriles Radonski vencer as próximas eleições na Venezuela, no dia 7 de outubro, será uma proeza democrática sem precedentes na história latino-americana. Nunca um oponente enfrentou um poder como o representado por Hugo Chávez. Quando a democracia ocupou o lugar da ditadura na Argentina, Uruguai ou Chile, os militares não tiveram alternativa: repudiados pela opinião pública por seus crimes, bateram em retirada. Não é o caso de Chávez, cujo objetivo explícito tem sido imperar até 2030, quando completará 76 anos. O Comandante, é verdade, chegou ao poder pela via democrática, mas o objetivo, por suas ações, é desvirtuar e, eventualmente, destruir a democracia venezuelana. Se não o conseguiu foi pela veemência de um amplo setor da sociedade venezuelana que não esqueceu o significado da liberdade. Esse setor mostrou um admirável espírito de unidade e agora tem em Capriles um líder jovem, prudente e visionário. As possibilidades de vitória são reais. Mas o inimigo, apesar de sua enfermidade (e, de certo modo, graças a ela, diante da piedade que provoca) é formidável.

Chávez não é somente um “herói” e um caudilho: é um redentor. Seu talento particular foi identificar misticamente seu movimento revolucionário com Bolívar, fazer milhões de compatriotas acreditarem que ele, Chávez, é a reencarnação de Bolívar – que libertou a América do Sul da Espanha e, como um condor, voltou a essas terras para libertar a Venezuela e a América Latina do imperialismo ianque.

Para corroborar essa dimensão redentora, Chávez mostrou notável gênio histriônico. Por longos anos apareceu num programa dominical de TV chamado Alô Presidente, um reality show de seis horas no qual monologava, dançava, cantava, declamava, lia cartas, atacava o império e os “piti-yanquis” (aliados internos dos americanos), dava aulas sobre o Socialismo do Século 21, saudava seu pai espiritual (Fidel Castro), invocava Bolívar e Cristo como seus eleitores retroativos, lembrava fatos da sua autobiografia e, sobretudo, governava: em seu gabinete (vestido de roxo) ordenava expropriações, movimentos de tropa, manobras diplomáticas, políticas públicas. Um amplo setor da sociedade republicana repudiava esse espetáculo. Contudo, mais da metade do eleitorado sempre o aplaudiu com fervor religioso.

Mas, além das estranhas invocações e de seu carisma, está sua vocação social, que seria absurdo e injusto negar. Durante o frustrado golpe de Estado contra Chávez em 2002, uma idosa trazia um cartaz com estas palavras: “Devolvam-me meu louco”. Uma parte considerável dos pobres na Venezuela sempre agradeceu a sua autêntica vocação para ajudá-la através das “Misiones” que criou em 2003 (principalmente com pessoal cubano) com a finalidade de oferecer saúde, alimentos e educação. Embora na prática muitos desses programas tenham fracassado, o público chavista não o percebe, e caso perceba, exonera o líder do programa (“são seus colaborares que falharam”). O quase monopólio da verdade pública de que Chávez desfruta depois que nacionalizou os principais canais de TV aberta disfarçam a realidade. Milhões de venezuelanos acreditam que sua palavra é espelho da verdade e o endeusam.

A ocultação da verdade foi gigantesca. Alguma vez os venezuelanos avaliaram o incrível gasto de US$ 800 bilhões que entraram nos cofres da empresa estatal de petróleo PDVSA (que, um dia, foi um exemplo de modernização acima da Petrobrás)? Impossível saber. Mas embora Chávez tenha ocultado, com o mentiroso véu do seu discurso, a falta de transparência e a corrupção da elite que lhe é fiel, muitos acham que o país atravessa uma crise sem precedentes: os índices de inflação são os mais altos do continente, como também a dívida pública; há uma drástica escassez de alimentos de primeira necessidade, eletricidade, cimento e outros insumos primários (resultado das expropriações em massa de empresas privadas, da ineficácia e ad corrupção dos novos administradores públicos); e a criminalidade é a mais alta do continente. O incêndio que matou dezenas de pessoas na usina da PDVSA parece uma metáfora cruel de um “regime foragido” como diz o eminente escritor Guillermo Sucre na revista Letras Libres.

A refinaria venezuelana Amuay retomou as atividades de uma unidade de destilação de petróleo de 100 mil barris por dia (bpd), disse o ministro da Energia, Rafael Ramirez, sexta-feira passada (31), após uma explosão que matou quase 50 pessoas e provocou um grande incêndio. O desastre paralisou as operações das instalações produtoras de 645 mil bpd da estatal PDVSA, que integra o segundo maior complexo de refinarias do mundo. As autoridades estão investigando o que pode ter causado o vazamento de gás que levou à explosão. Além das vítimas, a explosão destruiu 200 residências próximas.

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