A maior estatal chinesa do setor, a China National Agricultural Development Group Corporation, opera em 40 países e 10 mil de seus 80 mil funcionários trabalham no exterior. A empresa detém 6 mil hectares na Tanzânia e criou negócios no setor de alimentos também na Guiné, no Benin e em Zâmbia e já entrou na Argentina e no Peru. Outras companhias chinesas também têm comprado terras em vários países, com o mesmo objetivo: garantir à China produtos indispensáveis ao seu crescimento econômico e à urbanização de centenas de milhões de pessoas.

Desde a última década o governo chinês vem aumentando os investimentos em recursos naturais de outros países. Até agora, seu avanço mais impressionante ocorreu na África, onde os investimentos em mineração e depois na compra de terras foram acompanhados de projetos de cooperação com os países hospedeiros, quase sempre pobres e com baixo grau de desenvolvimento.

A corrida pelo controle de áreas cultiváveis está em pleno desenvolvimento. O forte aumento dos preços dos alimentos ocorrido em 2007-2008 está por trás do fenômeno. Muitos Governos de países dependentes das importações de alimentos se convenceram da necessidade de reduzir sua vulnerabilidade comprando ou arrendando terras em outros países. Em 2011, depois de alguns anos de relativa calmaria, os preços estiveram constantemente acima do pico de 2008, segundo o índice elaborado pela Organização para os Alimentos e a Agricultura da ONU (FAO). A febre dos cultivos segue queimando e, segundo vaticinam os expertos, não há previsão de que vá abrandar a curto e médio prazo.

A África é o principal cenário da corrida. A falta de transparência de muitos acordos e a ausência de registros públicos confiáveis em vários países impede perfilar estatísticas exaustivas em escala global sobre o fenômeno. Mas os dados disponíveis indicam que este é de amplíssimas proporções, com contratos que cobrem extensões de milhares de quilômetros quadrados. Tão somente na Etiópia, Moçambique, Sudão e Libéria, cerca de 43.000 quilômetros quadrados foram vendidos ou arrendados a investidores estrangeiros entre 2004 e 2009, segundo dados oficiais reunidos pelo Banco Mundial. Trata-se de uma superfície equivalente ao território da Suíça. Caso se tiver em conta que são muitos os países que – na África, mas também em outros continentes – vivem experiências similares, a magnitude da questão é evidente.

O aumento da população mundial, a dieta mais rica de milhões de pessoas em países emergentes e a crescente quantidade de cultivos destinados a biocombustíveis explicam a subida do preço dos alimentos e, em grande parte, a consequente procura por terras. Para além de sua dimensão econômico-social, este estímulo tem implicações geopolíticas.

Uma delas é o controle da água. “Estes grandes investimentos se situam em zonas com um acesso estratégico à água”, comenta em conversa por telefone Michael Taylor, analista da International Land Coalition, uma ONG que acompanha de perto o fenômeno. “Por exemplo, vários países das bacias do Nilo e do Níger são grandes receptadores deste fluxo de investimentos. Muitos dos contratos assinados nestes países não regulam claramente a questão do uso da água. A utilização do caudal do Nilo já é motivo de tensão entre o Egito e outros países da bacia. Quando todos estes projetos estiverem em pleno funcionamento, são de se esperar crescentes extrações de água. Há um alto potencial para que se produzam conflitos”. Cerca de 200 milhões de pessoas viviam na bacia do Nilo em 2005, e a ONU estima que serão 330 milhões em 2030.

O Mali, um dos países atravessados pelo rio Níger, vendeu ou arrendou cerca de 2.400 quilômetros quadrados de terra a estrangeiros somente em 2010, segundo dados reunidos pelo Oakland Institute. Mais de 100 milhões de pessoas vivem na bacia do Níger.

Países que sofrem escassez de água – como a Arábia Saudita, Catar ou os Emirados Árabes Unidos – estão entre os maiores protagonistas da corrida pela terra. “Mas também há outros tipos de investidores: países como a China ou a Índia, que têm água para cultivar, mas temem que no futuro seu setor agrícola seja incapaz de abastecer suas grandes populações; e empresas de países ocidentais, que querem terras para cultivar biocombustíveis, ou simplesmente vender mais no mercado internacional”, observa Taylor. Não faltam tampouco investidores que simplesmente buscam refúgio das turbulências do mercado financeiro.

A briga pela água não é a única evidente consequência geoestratégica neste fenômeno. Também tem um potencial desestabilizador na política de Estados nos quais a terra é uma questão vital, o meio de subsistência direta de grandes porcentagens da população.

Madagascar é um caso premonitório do que pode acontecer. Em 2009, o rechaço a um projeto para conceder à empresa sul-coreana Daewoo a exploração de uma área de 13.000 quilômetros quadrados – aproximadamente a metade da Bélgica – foi o catalisador de um profundo mal-estar que explodiu com violentos distúrbios que deixaram dezenas de mortos. O Governo que assumiu o poder após as desordens descartou imediatamente o projeto. A frustração de camponeses ou pastores expropriados ou despojados do direito de acesso às terras já criou tensões em outros países.