O mistério em torno do câncer que pode minar as pretensões eleitorais do presidente Hugo Chávez fortaleceu uma “aura messiânica” em torno do líder venezuelano, que encabeça todas as pesquisas de opinião para as eleições de outubro. A reportagem é de Claudia Jardim e publicada pela BBC Brasil, 09-06-2012.

A imagem construída por Chávez em mais de uma década no poder – de um presidente incansável que podia discursar por mais de nove horas, cantar e dançar em atos públicos e ser invencível nas urnas – foi seriamente abalada há um ano. Em 10 de junho de 2011, os venezuelanos foram surpreendidos com uma cirurgia de emergência para a extração de um “abcesso pélvico” no presidente. Foi o próprio Chávez que confirmou o diagnóstico de câncer em discurso, em Cuba. Um tumor “do tamanho de uma bola de beisebol” fora extraído da zona pélvica em uma segunda operação, dia 20 de junho, de acordo com o próprio paciente. O venezuelano disse que fez a cirurgia em Cuba após ser inquirido e convencido pelo líder cubano Fidel Castro. “(Fidel) me interrogou quase como um médico e me confessei quase como um paciente”, afirmou Chávez.

O diagnóstico de câncer marcou um longo caminho de ausência do presidente na Venezuela e abriu espaço para a consolidação de sua imagem messiânica. “A imagem de Chávez foi sacralizada”, afirmou à BBC Brasil o escritor Alberto Barrera, autor da biografia Chávez sem uniforme. “Este país se ergueu nos últimos 13 anos ao redor da figura de Chávez, tanto o chavismo como a oposição. Agora, de repente esse homem pode desaparecer. É ele quem dirige o mistério sobre sua saúde, como o capítulo final de uma novela”, afirmou.

Esse suspense em torno do câncer é visto como um dos elementos que tem contribuído para o fortalecimento da figura “mística” do líder venezuelano. “Chávez se consolidou como um um líder religioso, mais do que um presidente ou um líder revolucionário”, afirmou à BBC Brasil o analista político Oscar Schemel, diretor da consultoria privada Hinterlaces.

Atos políticos do partido governista PSUV passaram a ser um espaço de culto da imagem do presidente. Em um ato do partido para nomear voluntários para a campanha presidencial em Petare, um dos bairros mais populosos de Caracas, a multidão de simpatizantes chavistas era embalada pelo som de tambores e o coro de um “mantra curativo”, alusivo a Chávez. “Está salvo, está salvo, levanta a mão, levanta a mão”, cantavam. As canções foram interrompidas somente quando a voz de Chávez foi ouvida em   uma gravação do hino nacional, cantado pelo mandatário em alguma das manifestações lideradas por ele antes da doença. Analistas ouvidos pela BBC Brasil afirmam que o câncer presidencial afetou tanto o chavismo quanto a oposição.

“Houve um desajuste emocional entre os simpatizantes do presidente, em especial nos setores populares”, afirmou Schemel. De acordo com a consultoria Hinterlaces, houve uma “radicalização do chavismo” neste período, acompanhada de um incremento de sete pontos em popularidade, entre os meses de junho e julho do ano passado. Schemel explica que a avaliação “racional” sobre a gestão do governo foi substituída por um uma percepção “emocional” e de solidariedade com Chávez. “Isso explica, entre outras coisas, porque, apesar do descontentamento de parte da população, o presidente tem índices tão altos de aprovação”, afirmou.

De acordo com pesquisas realizadas nas últimas semanas, a popularidade de Chávez alcança 55% e o índice de intenção de voto flutua entre 17 e 20 pontos a favor da reeleição do presidente contra a candidatura do opositor Henrique Capriles Radonski.

A “hiperliderança” de Chávez, criticada inclusive por setores chavistas, se tornou o principal aspecto de incerteza e crise no interior do governo. Com o líder enfermo, se torna ainda mais incerto o futuro do projeto político bolivariano. Além de ser garantia de unidade das diferentes correntes que formam o chavismo, Chávez também é sua garantia de “êxito”. Sem ele, uma disputa eleitoral contra a oposição tenderia a ser mais difícil. A oposição também enfrenta dificuldades devido ao câncer presidencial. Os problemas da gestão chavista levantados por Henrique Capriles durante sua campanha se diluem no mistério do câncer presidencial. “Fizeram todo esse esforço (eleições primárias) para enfrentá-lo e agora é a doença o centro do debate”, afirmou o escritor Alberto Barrera.

As relações do governo de Chávez com a Igreja Católica foram difíceis desde sua chegada ao poder em 1999, mas atingiram o ponto máximo de tensão em 2010, quando houve uma ruptura. “A Igreja pode realizar muito junto ao governo na luta contra a pobreza, a miséria, a criminalidade e muitos dos males que ainda temos”, reiterou Chávez, que buscará sua terceira reeleição consecutiva nas eleições de 7 de outubro.

O presidente fez o pronunciamento na reunião que seu vice-presidente, Elías Jaua, realizou ontem com autoridades da Conferência Episcopal Venezuelana (CEV). Em julho de 2010 Chávez chamou os sacerdotes de “homens das cavernas” depois que a CEV apoiou o cardeal Jorge Urosa, que acusou o presidente de violar a Constituição e planejar instaurar uma “ditadura comunista”.

Chávez anunciou então que iria dedicar sua vida a criticar Urosa e decretou que fosse revisto um convênio de 1964 pelo qual o Estado venezuelano concede privilégios à Igreja Católica e compromete recursos estatais para financiar obras sociais e projetos educativos católicos. O assunto não foi adiante e, em 27 de abril, o governo doou quase US$ 294 milhões a uma rede de colégios católicos.

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