Ônibus cada vez mais pesados …. no bolso do trabalhador

As passagens de ônibus pressionaram os índices de inflação em janeiro de 2012, que foi o maior mensal dos últimos 09 meses. O IPC- A de janeiro foi de 0,56%. Em dezembro este índice foi de 0,50%. Transporte e alimentação representaram 61% do IPC – A de janeiro. E para fevereiro, a perspectiva é a mesma, já que várias cidades ainda estão aumentando as passagens. A preocupação dos economistas é que os transportes consomem parcela significativa dos ganhos dos trabalhadores, chegando a ¼. Entre as alternativas para reduzir os custos dos transportes estão a racionalização do sistema, prioridade aos transportes com corredores que deixam os transportes mais eficientes e distribuição por toda a sociedade dos custos dos serviços que hoje incidem apenas sobre os passageiros. Na região metropolitana do Rio de Janeiro o aumento das tarifas de ônibus foi o que mais causou impacto para o cidadão.Ônibus puxa inflação de janeiro
Aumentos das passagens urbanas fizeram a inflação mensal ser a mais acelerada dos últimos nove meses

ADAMO BAZANI – CBN

Que os aumentos das passagens de ônibus pesam no bolso do cidadão, principalmente do trabalhador de mais baixa renda, não precisa ser nenhum economista para saber.
Mas os economistas ajudaram a quantificar este peso e constataram que os reajustes das tarifas de ônibus pressionaram ainda mais que o normal os índices de inflação.
O IPCA – A , Índice de Preços ao Consumidor Amplo, neste mês de janeiro ficou 0,56% mais alto. O IPCA- A leva em conta uma cesta dos principais gastos da população brasileira e compara com o poder de compra que é determinado também pela inflação.
É o maior IPCA –A mensal dos últimos nove meses. De dezembro para janeiro, o índice pulou de 0,50% para 0,56%.
Nas capitais onde houve aumento das passagens de ônibus, o impacto da inflação foi mais forte como confirmou em coletiva a coordenadora do índice de preços apurado pelo IBGE, Eulina Nunes dos Santos.
“Os reajustes de ônibus em geral se concentram no início do ano, e tivemos aumento, nesta tarifa, em Belo Horizonte, Recife e no Rio. A mais prejudicada pela alta da inflação foi a região metropolitana do Rio de Janeiro, onde o IBGE apurou alta de 1,1% do IPCA, a maior entre 11 pesquisadas. A região passou pelo maior reajuste de ônibus no País, além de ter amargado prejuízos com os temporais do começo do ano”.
Eulina informou que os aumentos dos transportes e alimentos foram responsáveis por 61% do IPCA – A de janeiro.
Um alento é que o índice no acumulado de 12 meses, o que conta os meses quando não houve aumento de tarifa de ônibus, registrou alta de 6,22%, a mais baixa dos últimos dez meses e abaixo da meta da inflação para 2012 que é a mesma de 2011: 6,50%.
Economistas se dividem quanto ao rompimento ou não da meta da inflação e dizem que o índice acumulado dos últimos meses está muito perto dessa meta, diminuindo a margem de segurança.
Os ônibus ainda devem continuar pressionando a inflação em fevereiro, já que em várias cidades e regiões metropolitanas ainda ocorrem reajustes nas tarifas.

ÔNIBUS É CARO, SIM SENHOR!

O valor das passagens de ônibus nas principais capitais e cidades do País é alto não apenas em relação à qualidade dos serviços prestados, mas também se for levado em consideração o quanto ele consome da renda do trabalhador. Em 30% dos casos, as passagens de ônibus ou outros meios de transportes representam 25% dos ganhos dos cidadãos, o que é muito.
Mas como solucionar o problema?
Através do próprio sistema.
Racionalizar (que não significa cortar linhas ou diminuir frota), de modo que os custos possam cair sem prejuízos a oferta de transportes é uma das alternativas. E a prioridade aos transportes coletivos no espaço urbano é a forma mais eficiente de racionalização. Em corredores exclusivos, menos ônibus conseguem fazer mais viagens porque não ficam presos no trânsito. Isso reduz custos.
Comparativo pode ser traçado entre as capitais Curitiba e São Paulo. Curitiba possui uma rede de transportes composta por corredores exclusivos do tipo BRT de fato. Além disso, o pré-embarque, que é o pagamento das passagens de ônibus antes da entrada no veículo, ajuda aumentar ainda mais a velocidade operacional dos coletivos. No sistema de Curitiba, que envolve a região metropolitana, por R$ 2,50 é possível percorrer várias cidades e nas estações tubo ou corredores, o passageiro pega quantos ônibus quiser ou precisar.
Já na cidade de São Paulo, cuja demanda de passageiros é maior, a quantidade de corredores de ônibus é demasiadamente pequena. O prefeito Gilberto Kassab não entregou nenhum dos 66 quilômetros de corredores que prometeu para toda sua gestão que termina agora em 2012.
Os ônibus em sua maioria ficam presos em longos congestionamentos, gastando a toa combustível, peças e outros insumos. Para cumprir os intervalos propostos, por conta dos congestionamentos, as empresas têm de colocar mais ônibus que o normal para a extensão do trajeto, o que representa mais gastos. A passagem em São Paulo é de R$ 3,00. Há o Bilhete Único que diferentemente de Curitiba limita o número de viagens num determinado tempo: 4 viagens em 3 horas.
A pura comparação entre Curitiba e São Paulo pode não ser justa pela disparidade de números entre as duas cidades, mas há elementos de racionalização e priorização dos transportes em Curitiba que poderiam ser adaptados à realidade de São Paulo e diminuírem os custos dos transportes para os passageiros.
Além da melhor operação do sistema, outra alternativa a ser tomada em conjunto é a distribuição dos custos dos transportes para toda a sociedade. No atual contexto das cidades, o transporte público beneficia não apenas o passageiro, mas todos os cidadãos, inclusive quem só usa carro, na medida que ajuda no combate de problemas que atingem a todos: poluição e congestionamentos. Se a cidade tem o trânsito ruim hoje, imagine sem transporte público?
Mas os custos dos transportes são só assumidos pelos passageiros pagantes, inclusive que pagam as gratuidades que são direitos legais.
Assim, deve haver incentivos de desoneração tributária e subsídios de modo que toda a sociedade contribua para a os transportes coletivos.
Mas estes incentivos devem ser transformados realmente em diminuição das tarifas com fortes exigências sobre os empresários em relação a isso, para não haver o risco de alguns donos de empresas de ônibus ganharem os benefícios e continuarem a aumentar as passagens de forma desenfreada.
O índice de inflação de fevereiro promete e novamente um dos pesos maiores serão as tarifas de ônibus.

A tabela abaixo demonstra como a evolução do transporte por ônibus continuou crescendo nos municípios ao longo dos últimos anos. O transporte ferroviário recebeu pouco investimento, deixando-o quase estagnado.


Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes

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