As áreas cristãs passaram a ser recentemente o maior foco da luta armada. Os rebeldes do grupo Jabhat al-Nusra atacaram a cidade cristã de Sadad, ao norte de Damasco. Após violentos combates, foram expulsos dias depois por forças do governo. De maneira similar, milhares de pessoas fugiram da antiga cidade de Maaloula, também de maioria cristã. Ali, um número grande de não muçulmanos foram decapitados e tiveram suas casas e igrejas incendiadas ou destruídas.
Os cristãos de Damasco estão convencidos de que os extremistas estão deliberadamente alvejando seus bairros para enfraquecer os aliados do presidente sem atingir outros muçulmanos. Como é comum em vários países do Oriente Médio, muçulmanos e cristãos vivem em áreas diferentes, por isso para os rebeldes é fácil identificar os alvos preferencias.
“Todos os domingos, eles lançam mais de 15 morteiros ao longo do dia”, disse Amir. “Eles estão bombardeando as áreas especificamente cristãs.” Os líderes da Igreja da Síria temem que a queda de Assad transformará o país em um Estado islâmico, o que significaria o fim da existência milenar de cristãos em solo sírio.
Quase todos os 50 mil cristãos da cidade de Homs tiveram de fugir. Outros 200.000 foram expulsos da cidade de Aleppo. Em todas as cidades que invadem, os rebeldes exigem que os cristãos se convertam, caso contrário morrerão. Mais de um terço dos cristãos da Síria estão refugiados ou mortos.

Encravada em paredões de rocha e um dos únicos lugares no mundo onde o aramaico – a língua de Cristo – permanece vivo, a vila síria de Maaloula viu as palavras guerra e caos se incorporarem ao seu cotidiano desde setembro, quando virou palco de disputa entre rebeldes e forças do regime de Bashar al-Assad. Praticamente todos os cristãos da aldeia fugiram para Damasco. E as freiras que resistiram no local para cuidar de dezenas de crianças órfãs foram sequestradas na segunda-feira.

A violência em uma das cidades mais cinematográficas da Síria e símbolo do cristianismo aumentou o temor dos fiéis pelo fim da religião no país, onde cerca de 10% da população são cristãos. A dispersão dos moradores coloca em risco um idioma considerado pela Unesco ameaçado de extinção.

A língua é falada em Maaloula. Não é escrita. O governo havia criado um programa em parceria com a Unesco para preservar o idioma por meio de aulas e estudos. Agora não sei o que vai acontecer – lamentou a síria Najwa Safar Seif, residente no Brasil.

Os cristãos na Síria veem com preocupação o aumento da presença de extremistas islâmicos no front, em uma guerra que não dá sinais de trégua. O jornalista libanês em Damasco, Wissam Abdallah, cujo avô vivia em Maaloula e se refugiou na capital síria, não sabe se a casa de sua família ainda pode ser chamada de lar.

– Os cristãos não temem cidadãos muçulmanos, mas extremistas de vários países que se uniram aos rebeldes na luta contra o governo. Muçulmanos de aldeias vizinhas abriram as portas de suas casas para proteger cristãos que fugiram de Maaloula – contou Abdallah, que trabalha para o jornal do Líbano “Alakhbar”.

Picture
Aramaico

Segundo Najwa, há relatos de que três jovens cristãos foram assassinados durante a primeira invasão de insurgentes do Exército Livre da Síria e do grupo Frente al-Nursa – ligado à rede terrorista al-Qaeda -, em setembro. Após dias de combate contra as forças leais ao regime, os rebeldes tomaram o controle da cidade, sequestrando 12 freiras do Mosteiro Ortodoxo Santa Takla. – A cidade é cercada por rochas e possui apenas duas entradas. Uma delas estava bloqueada pelo Exército sírio. Um insurgente explodiu a barreira com um carro-bomba, e dezenas de militantes entraram na vila, atacando, saqueando e incendiando casas e igrejas – disse Najwa.

Maaloula é parte de uma luta mais ampla entre rebeldes e forças do presidente para o controle da estratégica rodovia central da Síria. Situada a uma altitude de mais de 1.500 metros, se assemelha a Petra, na Jordânia, e significa “entrada” em aramaico. Apesar do nome que leva na língua de Jesus, a aldeia virou porta de saída para os cristãos. Em Damasco, eles buscaram abrigo no bairro Bab Touma. Outros recorreram a parentes no Líbano. Em Maaloula, só ficaram muçulmanos.

O jornal do governo sírio “al-Watan” acusou os rebeldes de sequestro e de usar as religiosas como moeda de troca, o que foi negado pelo Exército Livre da Síria. O grupo assegurou que as freiras estão seguras e se encontram na cidade de Yabrood, a cerca de 80 quilômetros ao norte de Damasco, sob a guarda de membros da milícia, e não de extremistas.

O sequestro ganhou destaque na mídia internacional, levando o Papa Francisco a fazer um apelo pela libertação das freiras. O arcebispo Atallah Hanna, de Sebastia Ortodoxa, na Cisjordânia, condenou o sequestro no que ele chamou de um “ato desumano por motivo de ódio”.

Anúncios