Entrevista com Roseli Kühnrich de Oliveira:

O esgotamento das pessoas, causado por sua ocupação ou atividade é uma situação cada vez mais comum, e vem recebendo da psicologia e medicina o nome de Síndrome de Burnout (do inglês: to burn out , significando combustão completa).

Você se sente estressado? Nada do que faz traz realmente a mesma satisfação que sentia? Está irritado, desanimado, com problemas relacionais e não consegue mais dar a atenção que dava às atividades diárias? Está com fadiga, dores generalizadas e evita o contato social? Talvez você esteja com a síndrome de Burnout.

Burnout é uma das conseqüências mais marcantes do estresse profissional, caracterizando-se geralmente por exaustão emocional, avaliação negativa de si mesmo, depressão e insensibilidade com relação a quase tudo e todos (até como defesa emocional).

Buscando informações seguras sobre a síndrome é que entrevistamos a psicóloga Roseli de Oliveira.

Roseli Kühnrich de Oliveira é graduada em Psicologia pela Universidade Paulista (UNIP) de São Paulo, Especialista em Terapia Familiar e com Mestrado em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST), no Rio Grande do Sul.  Vice-presidente do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC Sul), e membro da Associação de Assessoramento e Pastoral da Família (EIRENE).

Autora do livro “Cuidando de quem Cuida: um olhar de Cuidados aos que ministram a Palavra de Deus”, Editora Sinodal e co-autora em De Bençãos e Traições, a história das famílias de Abraão, Isaque e Jacó, Ed. Ultimato/ Esperança.

 foto de Roseli Kühnrich de Oliveira 

Como identificar se uma pessoa está estressada ou com a síndrome de burnout? Quais as diferenças entre eles?

Roseli -Uma síndrome se caracteriza por alguns componentes, no caso do burnout, são os três que explicaremos a seguir. Esta síndrome é uma  “doença do trabalho”, ou seja, começou a ser pesquisada justamente por envolver um adoecimento ligado ao labor ocupacional. Os sinais e sintomas nos estágios iniciais são praticamente os mesmos do estresse e da depressão.  Esta só se efetiva nos estágios mais avançados da doença, apresentando características próprias.  No 1º estágio, há um  crescente e gradual desânimo ou desprazer em relação às atividades laborais. No 2º estágio, surgem dificuldades relacionais no local de trabalho, tensão, mal estar, faltas, dores generalizadas. No 3º, os lapsos de memória e a atenção difusa comprometem a qualidade do trabalho, gerando erros incomuns à pratica anterior. Aparecem as doenças psicossomaticas, com consequente automedicação e/ou uso de drogas e alcool.

Os sinais e sintomas aqui apresentados não representam, necessariamente, que a pessoa esteja em  burnout, podendo ocorrer variações diversas entre pessoas com mesmo quadro sintomático. Entretanto, se você apresenta vários destes sintomas, procure ajuda, é sinal que algo não vai bem! Entre os sintomas físicos destaco: Exaustão (esgotamento físico temporário); fadiga (capacidade física ou mental decrescente); dores de cabeça; dores generalizadas; alterações digestivas, do sono e sexuais, alergias.

Os sintomas psicológicos podem indicar depressão, irritabilidade; ansiedade; inflexibilidade; perda de interesse; descrédito na instituição e nas pessoas.

Sintomas comportamentais: Evita os irmãos e o contato social; usa críticas, reclamações, adjetivos depreciativos; resiste à mudanças, transfere responsabilidades; descuida de si mesmo, do lazer, faz auto medicação ou uso de bebidas alcoólicas, ou estimulantes, apresenta comportamentos de fuga (jogos, celular, internet, pornografia, etc.) e recusa ajuda.

“O termo “burnout” foi utilizado nos anos 70, para a chamada síndrome da desistência, de exaustão ou de consumição. Em 1986 Malasch e Jackson desenvolveram uma definição multidimensional que inclui três componentes: exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal”. Poderia falar sobre cada um destes componentes?

Roseli – A exaustão emocional deixa a pessoa sem “lastro”, irritada, hipersensível, sem forças para fazer o que anteriormente fazia. É um cansaço maior que o cansaço físico, pois envolve lapsos de memória, “ausências – brancos” ou desconcentração. Uma enfermeira comentou: preparar uma injeção se tornou uma tarefa pesada demais e eu antes fazia dezenas por dia, como pode?

A despersonalização no trato se refere a dificuldade de relacionamento com colegas de trabalho, familiares ou com as pessoas que seriam as que deveriam receber seus cuidados! Um médica que estava em Burnout disse: Quando eu dei por mim, estava gritando com a mãe de um paciente! Me  desconheci e me assustei comigo mesma!

A redução da realização pessoal – lembremos que estamos falando de uma síndrome ligada ao trabalho – faz a pessoa pensar em largar a profissão, mesmo depois de anos de estudo e investimento. Aparentemente há uma saturação que rouba a alegria. O trabalho antes prazeiroso se torna um fardo, uma obrigação desagradável. Um pastor relatou: eu chegava perto da igreja, antes do culto e chorava de desespero, até que um dia disse pra minha mulher: nunca mais eu entro lá, nunca mais quero fazer isso!

Você acredita que tem aumentado o descuido do cuidador com ele próprio?

Roseli – Sem dúvida! Quase sempre trabalha-se muito “com a cabeça” e pouco com o corpo! Cada vez mais o acesso à Internet torna as pessoas ainda mais sedentárias, isoladas e cansadas! Passamos por cima das necessidades básicas e dos ritmos do nosso próprio corpo. Pulamos refeiçoes, comemos mal e apressadamente, não mantemos exercicios físicos regulares, dormimos pouco e mal, e não nos divertimos. Isso é escravidão, estamos no Egito.

Quais os fatores desencadeantes da síndrome? Quais são os candidatos potenciais para desenvolver a síndrome?

Roseli –Confundida normalmente com o estresse, a síndrome é uma doença ainda pouco conhecida que provoca esgotamento físico e mental e atinge profissionais que trabalham diretamente com situações de conflito, principalmente nas áreas de segurança, saúde e educação, e com pessoas em sofrimento. Os fatores desencadeantes são em geral, sobrecarga de trabalho e, ou, frustração por não atingir as metas propostas, dedicação excessiva ao trabalho (com dificuldade para ter um lazer ou ócio e estar com a família), e falta de autonomia em situações de grande responsabilidade. Na síndrome de Burnout, há um componente relacionado com o ambiente de trabalho, pois o fator gerador da síndrome está não apenas no volume, mas principalmente no ambiente de trabalho. Assim, o paciente que tem o estresse clássico pode se recuperar depois de um período de férias, mas não o portador de Burnout, porque os problemas voltam quando ele retorna ao trabalho.

O que fazer se o pastor/líder está com a síndrome? No que consiste o tratamento? 

Roseli – Em geral, tratamento medicamentoso além da psicoterapia. Trabalha-se dentro de uma visão multidisciplinar, que pode incluir outras ajudas, como a fisioterapia, nutrição e avaliação de personal trainer, mentoria, etc. Busque auxílio médico para proceder a avaliação e intervenção adequadas.

Você acredita que todos “os pastores e líderes precisam de um Jonatas (amigo verdadeiro), um Barnabé (que simboliza o apoio necessário à atividade pastoral) e um Moisés (autonomia imprescindível para o desempenho das funções), e que é neste tripé de amizade, apoio e autonomia que encontram-se recursos de estruturação psíquica para o desempenho das funções pastorais” e de liderança?

Roseli – Bons amigos ou a interação prazerosa com outras pessoas estimadas libera a  ocitocina, conhecido popularmente como “hormônio da amizade”, que ajuda a diminuir  o cortisol, que é  o “hormônio do estresse”. Costumo dizer que nossa saúde não vem atreladas a grandes gastos, na verdade, amigos e caminhadas são grátis! Investir em amizades e gente competente para dividir tarefas é primordial.  Um pastor relatou: A exposição de fraquezas e limitações abre a ferida narcísica deste líder, fragiliza a imagem onipotente que tanto ele como a congregação idealizou e ameaça o exercício do poder, onde muitos lêem, ameaça o exercício do ministério. A realidade, no entanto é implacável e sempre nos lembrará de nossas limitações, se o ministro não puder vivenciar o seu lado humano, ele certamente ficará enfermo.

Em sua pesquisa de campo, para sua dissertação de mestrado em Teologia, você verificou que a síndrome de burnout está justamente nos primeiros anos de pastorado. Este é um dado que continua igual ou foi alterado? Há outras pesquisas e dados sobre o burnout em ministros religiosos? Por que ela é mais comum em pastores recém-formados?

Roseli –Uma pesquisa nos EUA, em 2001, entre mais de 2.500 lideranças religiosas cristãs, realizado pela Duke Divinity School, mostrou que 76% do clero cristão estava acima do peso ou obesos. E outra pesquisa mostrou que o clero de todas as religiões apresenta taxas mais elevadas de obesidade, hipertensão, diabetes e outras doenças do que os seus fiéis. Em alguns países, os seguros de vida para pastores são mais caros, sendo o pastorado considerado “profissão de perigo”!

Em geral, os jovens pastores são avaliados quantitativamente e isto é um erro.

Penso que pastores/as jubilados/aposentados poderiam ser mentores dos jovens. Isso ajudaria a todos/as, os novatos/as se sentiriam mais seguros e os mais experientes não se sentiriam descartados. As instituições e igrejas economizariam e mais que isso, preservariam o potencial humano.

Como as Faculdades de Teologia podem auxiliar na prevenção da síndrome de Burnout?

Roseli – A princípio, a formação integral dos pastores é um dos objetivos a buscar! Sou professora em diversos seminários e percebo que o enfoque continua sendo o “pensar teológico” apenas! Poucas “escolas de profetas” se preocupam com a saúde física e emocional dos futuros obreiros. Na verdade, penso que os seminários são um reflexo das denominações e igrejas. Pouco se investe na pessoa do pastor/a. A cada dia escuto histórias de dores,angústias, adoecimentos na esfera pastoral. Muitos fazendo ” bobagens” por conta do cansaço, desamparo e falta de preparo integral. E que preço pagam pelos erros! Durante muito tempo, o sacrifício pessoal e a falta de cuidado de si mesmo entre os pastores foi considerado uma espécie de virtude. Penso que se pode ajudar os futuros pastores a enxergar o homem com um todo (e não só as necessidades espirituais) e os seminários podem sugerir um mentor ou capelão, para ajudá-los a enxergar a própria finitude e limitação.

Quais os seus conselhos para pastores e líderes?

Roseli – Cuide-se ! Ninguém, fará isso por você! O seu corpo é Templo do Espírito! Zele por ele!
Dicas: programe seu dia e semana com intervalos. Chegue primeiro na sua agenda, antes que os outros cheguem. Marque seus dias de descanso na agenda e priorize -os. Preserve seu dia de descanso, mantenha SUA comunhão com Deus. Pastores/as em geral caem em ativismo, não priorizam tempo de oração e meditação da Palavra. A Bíblia se torna instrumento de trabalho e não de comunhão pessoal com o Senhor. Na minha pesquisa, vários afirmaram ter pouco ou nenhum tempo de oração e leitura pessoal da Palavra, sempre que liam a Bíblia era com objetivo de preparar um sermão ou palestra. Pratique atividade física regular, pois ela libera hormônios essenciais para a saúde do corpo e da mente.
Procure não se medir pelo desempenho dos colegas ou estatísticas de “igrejas vencedoras” . Isso é pornografia eclesial: gera cobiça e desdém pelo que se tem em mãos. Procure a competência e excelência no seu trabalho, não competição.

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