Ambos os textos de Mateus 5:32 e 19:9 usam a palavra grega porneia, de significado diferente de moixeia, traduzida para adultério. De acordo com H. Reisser, palavras do radical porne tem significado ao hebraico zanah que inclui prostituir ou fornicar. As tradições rabínicas usaram porneia não apenas para prostituição e sexo extra-conjugal, mas também incesto e todo tipo de perversão sexual.

No contexto de Mateus 19, os fariseus buscaram tentá-lo. Jesus utiliza como fundamento Genesis 2:24 para responder a pergunta: o divórcio é permitido em algumas situações? A resposta é clara e direta: Não. Jesus acrescenta no verso 6: “O que Deus uniu, não separe o homem”. Estamos falando do plano perfeito de Deus. Porém, Deus criou o homem com vontade própria, o que acrescentou um fator de risco ao Plano de Deus.

  • E Jesus, respondendo, disse-lhes: Pela dureza do vosso coração vou deixou ele (Moisés) escrito esse mandamento; porém, desde o princípio da criação, Deus os fez macho e fêmea. Por isso, deixará o homem a seu pai e a sua mãe e unir-se-á a sua mulher. E serão os dois numa só carne e, assim, já não serão dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou, não o separe o homem. (Mc 10:5-9)
  • Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério. (Mt 19:9)

Frederick Pierce, autor de Casamento & Família, comenta que Deus deu uma exceção à Lei de uma carne, e essa foi a fornicação. Portanto, se a Lei fosse rígida, então não haveria exceção. Outro precedente bíblico de uma exceção encontra-se em João 8:1-5:

  • Jesus, entretanto, foi para o monte das Oliveiras.  De madrugada, voltou novamente para o templo, e todo o povo ia ter com ele; e, assentado, os ensinava. Os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma mulher surpreendida em adultério e, fazendo-a ficar de pé no meio de todos,  disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. E na lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes?  Isto diziam eles tentando-o, para terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo. Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra. E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão.

Pierce lembra que diante da lei de Moisés que dizia que qualquer pessoa apanhada em adultério deveria ser apedrejada. Jesus deixou a mulher ir, dizendo-lhe que não pecasse mais. Se isso não for Graça, não sei o que será. Ele perdoou alguém apanhada em flagrante. Ele abriu exceção para a lei de apedrejar alguém apanhada em adultério, o que demonstra que também não se trata de uma lei fixa.

Estudiosos vêem o divórcio e novo casamento em Deuteronômio 24:1-4 como permitidos. Como compatibilizar com o texto de Malquias 2:6, onde Deus odeia o divórcio? Parece que a realidade do divórcio é assumida e não sua validade. Por outro lado,.podemos ler o texto abaixo e ver que é permitido a pessoa casar 3 vezes sem estar envolvida em fornicação:

  • Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela, e se ela não for agradável aos seus olhos, por ter ele achado coisa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir de casa; e se ela, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem; e se este a aborrecer, e lhe lavrar termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir da sua casa ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer,  então, seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a desposá-la para que seja sua mulher

A narrativa de Mateus 1:18-25, mostra José considerando divorciar-se de Maria, mas sendo um homem justo, queria evitar a condenação e apedrejamento de Maria.

Paula Barata Dias comenta: “Segundo os Evangelhos, no entanto, Cristo pouco disse sobre o casamento: manifestou-se, quando posto à prova, pela indissolubilidade e caráter sagrado do laço matrimonial “— não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19, 6), o que contraria não só a lei judaica, como toda a tradição antiga, que permite o repúdio e o divórcio.

Dentro de outro contexto, os apóstolos também se posicionaram contra o adultério. Verifica-se no livro de Atos que o Concílio de Jerusalém recomendou que os gentios novos convertidos ao cristianismo se abstivessem das relações sexuais ilícitas, sendo que as epístolas de Paulo confirmam a proibição do adultério:

  • Todavia, aos casados, mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher (…) A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo em que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor. (I Coríntios 7:10-11; 7:39).

Pierce identifica outra exceção em relação à conversão de um dos cônjuges. Paulo disse que a pessoa deixada pelo outro, que não aceita a fé cristã, não está sujeita a escravidão. Ao que parece, ela pode casar-se novamente.

Os discípulos de Jesus tiveram dificuldades em entender o ensino de Jesus sobre o divórcio pois voltaram a mesma pergunta conforme Marcos 10:10-12:

  •  Em casa, voltaram os discípulos a interrogá-lo sobre este assunto.  E ele lhes disse: Quem repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério contra aquela. E, se ela repudiar seu marido e casar com outro, comete adultério.

A questão central era a dureza de coração e auto-controle. Ao evento, Mateus acrescenta conforme 19:10-12:

  •  Disseram-lhe os discípulos: Se essa é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém casar.  Jesus, porém, lhes respondeu: Nem todos são aptos para receber este conceito, mas apenas aqueles a quem é dado. Porque há eunucos de nascença; há outros a quem os homens fizeram tais; e há outros que a si mesmos se fizeram eunucos, por causa do reino dos céus. Quem é apto para o admitir admita.
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