Oskar Skarsaune, no livro À sombra do Templo, reconhece que o terceiro dos mais antigos pais apostólicos, Inácio, é o mais enigmático de todos. Ele foi bispo de Antioquia, na Síria, foi preso e enviado a Roma; no caminho, visitou algumas comunidades cristãs na província da Ásia, tendo dialogado com emissários de outros cristãos. Suas sete cartas, escritas durante a viagem rumo ao martírio em Roma por volta de 110 d.C., são peculiares do ponto de vista lingüístico, originais do ponto de vista teológico, e sua interpretação é alvo de acaloradas disputas entre os estudiosos.

A importância de Inácio para o nosso contexto deve-se ao fato de que se 1Clemente e a Didaquê mostram-se profundamente judaicos, Inácio não. Em Inácio, o contexto judaico do cristianismo parece muito mais distante do que em qualquer outro escrito cristão anterior ao dele (ou imediatamente posterior a ele, como veremos). Isto se deve, em parte, ao caráter de suas cartas:
  • É monstruoso falar de Jesus Cristo e praticar o judaísmo. Porque o cristianismo não baseou sua fé no judaísmo, e sim o judaísmo no cristianismo, e toda língua que crê em Deus foi reunida por ele (Aos magnésios 10.3)
  • Se, porém, alguém interpretar o judaísmo para vós, não o ouçais; porque é melhor ouvir o cristianismo dos circuncidados do que o judaísmo dos incircuncisos (Aos filadelfienses 5.2-6.1)
 Temos a impressão de que o relacionamento de Inácio com o AT era principalmente de cunho literário. Para ele, o AT era um livro, e não um passado vivo que, por meio de tradições e observâncias, determinara sua própria vida e seu pensamento. É isso, mais do que qualquer outra coisa, que induz o gentio cristão ao erro. A posição de Inácio pode ser mais bem caracterizada como uma ortodoxia neotestamentária. Foram os escritos apostólicos que o levaram a valorizar o AT e a amar os profetas. A autoridade do AT é indisputável, porém é derivada da autoridade do Evangelho.
Duas passagens dos pais apostólicos lidam explicitamente com o culto dominical; a primeira delas encontra-se na Didaquê, a segunda, em Inácio:
  • Se aqueles, então, que andavam segundo os costumes antigos, achegaram-se a uma nova esperança, não mais vivendo para o sábado, e sim para o Dia do Senhor, em que também nossa vida floresceu por meio dele e de sua morte [… ] e por esse mistério recebemos a fé (Inácio, Aos magnésios 9.]).
Essa passagem de lnácio revela a razão da escolha desse dia: a ressurreição de Cristo. E se a celebração da ressurreição de Cristo foi a causa principal da reunião dominical, não era de esperar que ela se realizasse no domingo pela manhã?